Conflitos e resistência no Paraná

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A CONSOLIDAÇÃO DA REDE DE AGROECOLOGIA NOS ASSENTAMENTOS DO NOROESTE DO PARANÁ: O banco de sementes como uma forma de resistência e manutenção da agricultura camponesa

Introdução

Este texto, o qual também foi discutido na Jornada de Pesquisadores da Questão Agrária que ocorreu na cidade de Marechal Cândido Rondon entre 13 a 15 de novembro de 2016, é resultado de um projeto intitulado: “A Geografia das Lutas no Campo: apoio à consolidação da rede de agroecologia nos assentamentos do Noroeste do Paraná” o qual foi fomentado pelo Programa Universidade Sem Fronteiras da Secretaria de Estado, Ciência e Tecnologia do Paraná – SETI, sendo que no ano de 2016, esteve em sua segunda fase de desenvolvimento. Nesta etapa, a equipe trabalhou no sentido de apoiar e viabilizar em conjunto com os camponeses, a consolidação de Rede de Agroecologia, que foi criada na primeira fase do projeto. Dito isto, a propósito do nosso recorte espacial, salientamos que a Região Noroeste paranaense abarca a Microrregião Geográfica de Paranavaí. Nesta microrregião, inserem-se os municípios que possuem uma grande quantidade de assentamentos resultantes da luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, nos quais temos dedicados nossos trabalhos nesse ano, sendo eles: Querência do Norte, Santa Cruz do Monte Castelo, Terra Rica, Amaporã e Planaltina do Paraná. Os mapas abaixo nos mostram a localização da região Noroeste no Estado do Paraná e os municípios envolvidos no projeto.

Nestes municípios temos concentrado nossos esforços para consolidar a Rede de Agroecologia do Noroeste, criada em 2013 visando expandir experiências agroecológicas nos assentamentos da região. Naquele ano iniciamos um projeto de extensão, também por meio do programa Universidade Sem Fronteiras, cujo objetivo, somando parcerias[1], era criar a Rede de Agroecologia. Com a rede criada, nossos esforços precisariam ser empreendidos no fortalecimento para sua consolidação. Nesta etapa, o objetivo dos envolvidos nessa articulação que visa a ampliação das práticas agroecológicas voltou-se ao levantamento e resgate das sementes crioulas, pautados na valorização do conhecimento tradicional e na defesa da variabilidade genética vegetal. Assim, trabalhamos para a formação de um banco de sementes crioulas como parte da agenda prevista no projeto.
Os principais objetivos para a formação de um banco de sementes estiveram direcionados a evitar a erosão genética e contribuir para a autonomia das unidades rurais que conformam os assentamentos da região. O primeiro remete ao declínio de espécies vegetais alimentares em virtude da redução das variedades, voltadas para atender o mercado. O segundo tem como foco o fato de que uma família que utiliza sementes crioulas não necessita comprar o conjunto de insumos e defensivos sintéticos que acompanham as sementes híbridas e transgênicas, beneficiando-se de uma maior autonomia financeira, ao mesmo tempo que estabelece resistências ao avanço de uma agricultura nos moldes do modo de produção capitalista, que prevê o lucro a qualquer custo e o descaso com o ambiente.

Os Camponeses do Noroeste do Paraná em Busca de uma Produção Agroecológica Através da Rede de Agroecologia: A Questão das Sementes, a Dinâmica da Rede e a Metodologia da Equipe

Na agroecologia as sementes representam objeto fundamental, uma vez que seu uso implica em cenários produtivos específicos sob o controle direto dos trabalhadores, com um manejo pautado em técnicas agroecológicas, tais como adubação verde, rotação e consorciamento de culturas e defensivos naturais. As sementes crioulas, também chamadas de “tradicionais” ou “próprias”, são adaptadas ao meio e, por isso, são mais resistentes às doenças e a ataques de insetos quando comparadas às convencionais, cujo melhoramento é sistemático e altamente padronizado. As sementes ditas convencionais podem ser de dois tipos: híbridas; quando resultado de cruzamento de duas plantas da mesma família e diferentes linhagens, ou transgênicas; quando em uma planta são inseridos genes com características desejáveis presentes em outro ser vivo. Estes processos fragilizam as cultivares, tornando-as mais exigentes em adubação, defensivos e condições ambientais. As sementes crioulas, no seu processo de domesticação continuado durante milhares de anos, são melhoradas segundo seleção massal, isto é, a “olho nu”. Desta maneira as plantas mais viçosas de uma mesma linhagem são cruzadas entre si. A produtividade de determinada variedade é sobremaneira influenciada por sua adaptabilidade às condições edafoclimáticas locais, daí  decorre a considerável produtividade das sementes tradicionais sem insumos sintéticos e a importância de criar um banco de sementes regional. Partindo de tais premissas, a Rede de Agroecologia do Noroeste tem se estruturado a partir de formas participativas que pretendem atender as demandas dos agricultores, portanto nossas diretrizes de trabalho são definidas conjuntamente.  Nossa metodologia - que já é uma metodologia consolidada e que vale a pena ressaltar que tem dado ótimos resultados - temos denominado de “Metodologia Coletiva de Ações Participativas e Trocas de Experiências e Saberes”, a qual envolveu os camponeses, os pesquisadores deste projeto, mediados sempre pelo grupo gestor da Rede. Nas reuniões coletivas definimos que um dos pilares de consolidação da iniciativa seria a criação de um banco de sementes. Assim, ao longo dos diversos encontros, elencamos nos assentamentos, as famílias que possuem sementes crioulas e as que teriam interesse em cultivá-las.  A foto demonstra o grupo reunido discutindo os assuntos referente a Rede.

Grupo Gestor da Rede Reunido no Centro de Formação Ernesto Guevara - CEPAG, no município de Santa Cruz do Monte Castelo-PR.
Fonte: Acervo do projeto.
Data: 01-10-2015.

Inúmeros trabalhos de campo foram realizados para visitar e cadastrar tais famílias, valendo-nos de aparelho do Global Sistem Position - GPS, para pontuar as localizações dos agricultores e elaborar mapas. Também fizemos uso da câmera fotográfica, para fotografar e filmar, pois cremos que a imagem é um elemento fundamental para retratar e comparar as mudanças no espaço geográfico. Com isso montamos uma pasta iconográfica e realizamos um pequeno documentário no final do projeto. Sendo estes também, elementos fundamentais no roteiro para escrevermos as informações necessárias para catalogação das sementes, as quais foram coletadas e armazenadas em recipientes de plásticos quando ainda estávamos no campo e, posteriormente  armazenadas usando a técnica de conservação das sementes.
 Não trabalhamos com questionário estruturado e, sim com o uso da fonte oral, em que por meio das entrevistas obtivemos um maior nível de detalhamento possível das informações de cada semente para catalogação, tais como: local de origem, suscetibilidade a doenças e insetos, morfologia vegetal e época de plantio e produtividade. Coletamos amostras de 106 variedades, em quantidades variadas segundo a disponibilidade de cada agricultor. No retorno à Universidade, armazenamos as sementes em potes lacrados, com terra diatomácea[2] a fim de garantir melhor conservação. É fundamental levar em consideração que um banco de sementes tem por objetivo que estas se mantenham férteis, objetivando sua posterior replicação entre os interessados. Em cada pote foi afixada uma etiqueta descritiva da variedade, data da coleta, família, origem da semente, assentamento, município e ciclo produtivo.
Nestes trabalhos de campo a equipe pôde se colocar a par das iniciativas individuais, interesses e dificuldades tangentes aos processos de produção em bases agroecológicas, tomando conhecimento que esta riqueza da biodiversidade alimentar local pertence, naturalmente, aos agricultores assentados envolvidos no processo construtivo da Rede. É por isso que o banco de sementes, finalizada a etapa atual de coleta e armazenamento será entregue ao CEPAG - Centro de Pesquisas e Estudos Ernesto Guevara, do MST, localizado em Santa Cruz do Monte Castelo.

Considerações Finais

Este trabalho de pesquisa e extensão, busca fomentar o debate da importância que, para os camponeses tem, a produção e troca de sementes. O objetivo do projeto é criar um banco de sementes crioulas com diversas variedades de cultivares para que os agricultores tenham  possibilidade de plantar  outras espécies fomentando assim a Soberania Alimentar. O projeto conta com assessoria, realizada por técnicos agrícolas e agrônomos, que acompanham e auxiliam as técnicas herdadas que passaram de geração em geração.
No entanto, a proposta  não pretende ensinar a plantar, adubar e fazer a correção adequada do solo aos assentados, mas sim resgatar sua cultura e valorizar a atividade consistente em  selecionar e intercambiar sementes. Este trabalho junto às famílias camponesas procura incentivar cada vez mais o plantio e troca de sementes crioulas para ampliar as práticas agroecológicas na região noroeste do Paraná, constatando que, no caso da produção agroecológica, não é necessário o uso de adubos químicos inorgânicos e agrotóxicos para obter boas produtividades.
Como mencionamos acima - referente a coleta - no banco de sementes estão também catalogadas as cento e seis espécies de sementes das mais diversas variedades, como: arroz, feijão e milho como as mais conhecidas, igualmente, há outras que talvez sejam menos conhecidas para determinadas famílias, mas todas com sua devida importância para continuidade, não só da espécie e sim, em termos de relevância no mercado consumidor e na mesa da população. Ademais, todas as sementes estão armazenadas em potes com devidas informações sobre cada variedade numa linguagem adequada que facilita a compreensão dos sujeitos da proposta. Desta maneira, esperamos fomentar que novas famílias assentadas na região adiram nos seus lotes a esta proposta que visa a independência das famílias camponesas, mediante o uso e a preservação das espécies, despertando o interesse pelo cultivo e “cuidado” para com as sementes crioulas .

Grupo de Trabalho do Laboratório de Geografia Agrária do DGE – UEM – LAGEA – Postagem para fevereiro de 2017.

Adélia Aparecida de Souza Haracenko.
Claudemir Rodrigues Soares.
Isaac Giribet i Bernat.
Julia Marcon Costa.
Mariane Santos Sarraipa.
Sandra Mara de Oliveira Soares Escher.





[1] Dentre elas cabe destacar a estabelecida com um projeto de cooperação internacional financiado pela Universitat de Lleida, que também visa a implantação de práticas agroecológicas em assentamentos de Reforma Agrária da região Noroeste.
[2] Essas amostras de sementes que estão compondo o banco, foram devidamente armazenadas em frascos de plásticos contendo terra de diatomácea, que é um pó inerte proveniente da moagem de depósitos fossilizados de algas fitoplanctônicas (diatomáceas), à base de dióxido de sílica, que vem sendo utilizada no controle de pragas de grãos armazenados. Ela atua como um combatente de insetos, dificultando que a semente venha a estragar por ações desses insetos. Auxilia também no controle de umidade dentro dos frascos, os quais são lacrados e etiquetados com as informações de cada variedade, família e localização.