sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Rede Produtos da Terra completa 5 anos e fortalece prática do consumo consciente em Curitiba

 

Produtos da Terra leva cores e sabores da Reforma Agrária ao Centro de Curitiba. Fotos: Isabela Gonçalves 

 

“Essa história começa bem cedinho, antes mesmo de amanhecer. Há quem ainda não imagine como se monta a cesta e a feira que chega até você. Tem terra, água, chão, caminhão e um montão de mãos […]”. Este é um trecho do causo escrito pela militante Adriane Andrade sobre a rede Produtos da Terra, e resume o trabalho coletivo que marca a iniciativa. 

 

Neste mês, a rede comemora 5 anos de aproximação entre consumidores/as de Curitiba (PR) e produtores/as agroecológicos da reforma agrária, agricultores familiares e empreendedores solidários/as. 

 

A “prateleira virtual” do site e as feiras estão recheadas com produtos de todas as regiões do Paraná, e também de cooperativas de outros estados. Entre a diversidade de mais de 200 itens estão alimentos in natura e industrializados como grãos, legumes, verduras, doces, bebidas, panificados e sucos naturais. 

 

Para Ademir Fernandes, integrante do grupo fundador do Produtos da Terra e coordenação da iniciativa, a ação é gratificante, e fortalece a cadeia de produção e comercialização de alimentos saudáveis. 

 

Ademir Fernandes em uma das ações solidárias das quais do Produtos da Terra participa. Foto: Giorgia Prates 

 

“A gente organiza as cestas com alimentos vindos direto dos produtores, e tem todo um carinho do produtor, da equipe que está organizando, e sentimos que também das pessoas que estão recebendo, porque sabe que estão recebendo produtos saudáveis. E queremos que seja um trabalho permanente, e que chegue ainda a muito mais gente”, garante.  

 

Roberto Barbosa é consumidor das cestas desde o início do projeto, e relata a satisfação em ter acesso a este tipo de alimento. “Nossa, como o tempo passa! Cinco anos de comida sem veneno e que eu e minha esposa descobrimos o verdadeiro gosto de verduras, legumes e frutas. É um caminho sem volta, graças ao trabalho e dedicação de vocês. Muito obrigado e parabéns”. 

Gestão coletiva e popular

A marca Produtos da Terra PR é gerida de forma coletiva pela CCA – Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná e pelo empreendimento Sinergia Alimentos Saudáveis, com participação da Rede Mandala – Rede Paranaense Campo-Cidade de Economia Solidária


Todos os alimentos comercializados in natura são produzidos sem agrotóxicos. Foto: Nyky Souza 


A demanda surgiu quando trabalhadoras/es voluntárias/os do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que distribuiam produtos da reforma agrária para a população em situação de vulnerabilidade, sentiram falta de que suas famílias se alimentassem de maneira saudável e da comida feita com respeito pela terra.


O primeiro formato foi com feiras organizadas semanalmente nas Paróquias São Pedro Apóstolo (localizada no bairro Xaxim) e São José das Famílias (no Sítio Cercado). Os alimentos vinham do Assentamento Contestado, na Lapa.

 

O marco de criação da articulação é o dia 19 de setembro de 2016, quando se formou o primeiro grupo do Whatsapp para organizar os pedidos e as entregas das encomendas. Em 2017 e 2018, com o aumento da demanda, a logística das cestas se tornou mais complexa. Foi então que o Produtos da Terra ganhou reforço, em 2018, da Cooperativa Central da Reforma Agrária do Paraná (CCA/PR), a qual reúne mais de 20 cooperativas pelo Estado e se relaciona em diferentes regiões do Brasil. 

 

Foto: Nelson Orlando de Andrade

 

A rede Produtos da Terra propõe o consumo consciente, com respeito às pessoas que integram a cada etapa da produção, e também ao meio ambiente. Sirley Gonçalves Queiroz é integrante da equipe das cestas agroecológicas Produtos da Terra desde de 2020, e relata a característica especial do trabalho.

 

“Tem o significado de acolhimento, é onde se planta e colhe amor, onde pessoas dividem para somar, onde os interesses de todos são importantes. É a ligação de pequenos agricultores até o consumidor final, são as pessoas que acreditam na sustentabilidade do mundo. E onde encontrei pessoas que têm os mesmos ideais que os meus”, afirma. 

 

Os consumidores também são convidados a serem parceiros no projeto, como explica Ademir Fernandes: “Nós temos uma relação de parceria entre os produtores da reforma agrária no campo e as pessoas urbanas que querem alimentos saudáveis. Queremos novas relações com a natureza e a sociedade”. 

Cestas Esperança para enfrentar a fome na pandemia


Como forma de combate à crise e apoio para famílias das periferias, o Produtos da Terra se uniu à União Solidária para atuar em pontos de carência social de Curitiba e Região Metropolitana, com a partilha de alimentos saudáveis e cargas de gás. 

Pelo site do Produtos da Terra, além de comprar seus alimentos orgânicos, a/o consumidor pode doar uma Cesta Esperança no valor de R$ 60 para ser entregue pela ação. 

 

Integram a ação o Movimento Dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Sindipetro PR/SC (Sindicato dos Petroleiros), sindicatos, e outros movimentos e organizações sociais.

 

A ação se soma às inúmeras iniciativas de combate à fome, diante de um contexto de ampliação da crise econômica e social no Brasil. Em pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), divulgada em abril de 2021, mais de 116 milhões de brasileiros não têm acesso à comida e 19 milhões passam fome.

Foto: Nelson Orlando de Andrade

Um causo do Produtos da Terra 

Em comemoração aos 5 anos do Produtos da Terra, a militante Adriane Andrade, que faz parte da equipe da rede, escreveu o seguinte “causo”:  

 

“Essa história começa bem cedinho antes mesmo de amanhecer

 

Há quem ainda não imagine como se monta a cesta e a feira que chega até você

 

Tem terra, água, chão, caminhão e um montão de mãos ..

 

vou logo lhe contar 

 

Dona Maria e seu José colhem a batata a cenoura e a beterraba

 

Dona Alzira

 

A alface couve a escarola e o manjericão

 

Dona Sandra e Fabiana

 

O limão (tem o siciliano. O Taiti e o Rosa), tem a mexerica e a pokan

 

A laranja o morango e o abacate é seu Pedro que logo cedo colhe e leva pro caminhão

 

Marta produz gengibre e também o açafrão

 

Seu Roberto vai passar logo, logo

 

Junta um tanto aqui outro acolá

 

Depois carrega o arroz, o feijão, o fubá

 

Pão, o leite, e o café

 

E também a cachaça camponesa que não pode faltar

 

O cheiro de verdura fresca é de perfumar o caminhão

 

A cidade fica logo ali

 

Já dá para avistar

 

Eita quanta boniteza tem num dia de colheita

 

As cores tomam conta e a diversidade de produtos é de encher o coração

 

Chega, descarrega, separa e prepara e coloca de novo no caminhão…

 

Para feira e as cestas que vão ser entregues pra um montão de gente que já tá com a água no fogo só esperando o feijão

 

Há quem diga que se o campo não planta a cidade não janta e não é que é verdade verdadeira…pra ter tanta variedade na mesa precisa de um tantão de mãos…

 

Obrigado por fazer parte de 5 anos do produtos da terra

 

Sua mão também é importante”



Por Ednubia Ghisi e Leonardo Henrique, do MST no PR 


Edição:  Fernanda Alcântara

Leia na íntegra: https://mst.org.br/2021/09/24/rede-produtos-da-terra-completa-5-anos-e-fortalece-pratica-do-consumo-consciente-em-curitiba/

Cooperativas reclamam das dificuldades na compra da alimentação escolar pelo estado do Paraná

 

Reunião foi iniciativa dos deputados estaduais Luciana Rafagnin e Tadeu Veneri, ambos do PT - Foto: Reprodução


Nos últimos anos, o governo do Paraná vem reduzindo a aquisição de alimentos da agricultura familiar para a alimentação escolar. De acordo com as normas do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), pelo menos 30% da merenda escolar comprada com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) deve ser proveniente dos cultivos da agricultura familiar, camponesa e de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e faxinalenses. Mas ano a ano uma série de entraves dificultam a execução dessa política.


Entre os principais problemas estão a redução dos valores destinados à compra, atrasos na burocracia desses processos, falta de reajuste nos preços pagos, que não acompanham a inflação, aumento nos custos de produção, redução dos produtos, itens e das quantidades adquiridas pelo governo.

Na quinta-feira (16), os deputados estaduais Luciana Rafagnin e Tadeu Veneri, ambos do PT, reuniram, em modo remoto, representantes das cooperativas da agricultura familiar e da reforma agrária que têm contrato com o governo do estado, por meio do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar) e da Secretaria da Educação e do Esporte (SEED), para fornecimento de produtos à alimentação escolar.

Muitos dos problemas que vêm sendo verificados podem se repetir no ano que vem, uma vez que deve-se concluir nos próximos meses a proposta do edital para 2022, com vistas à tramitação da lei de diretrizes orçamentárias (LDO). Por isso, outra preocupação das cooperativas é com relação ao funcionamento do programa no ano que vem.

Para Jean Carlos Pereira, dirigente da Cooperativa Central da Reforma Agrária (CCA), “se não nos preocuparmos agora com o aporte de recursos ao programa em 2022 e discutirmos com o conjunto do governo, corremos o risco de amargar mais prejuízos e vermos essas medidas inviabilizarem cada vez mais a permanência das famílias na produção de alimentos.”

A inflação e a alta nos custos de produção são fatores que precisam ser reavaliados nessa negociação sobre o futuro do programa no estado. O dirigente da Cooperativa de Produção, Comercialização e Agroindustrialização Agroecológica União Familiar (Coprauf), de Ortigueira, Evandro Goncalves, citou alguns exemplos da situação enfrentada pelas famílias cooperadas que atendem cerca de 52 escolas na área de abrangência de cinco municípios daquele núcleo regional.

“A cooperativa investiu em organizar toda uma logística de entrega. Mas são percorridos cerca de 120 quilômetros em estrada de chão para entregar 21kg de produtos e, de agosto para cá, a redução foi em torno de 30%, o que acaba desanimando os agricultores”, disse. “O caso do grupo dos panificados é bem emblemático: tínhamos dez iniciativas pequenas de agroindústrias familiares para produção de pães, bolos e bolachas e, com a diminuição das compras do PNAE, muitas acabaram desistindo. O programa reajustou de R$ 15,00 para R$ 15,22 o valor da cuca bolo simples de um ano para outro, e esse acréscimo de 22 centavos não acompanha a alta nos custos da farinha de trigo, do açúcar, do gás de cozinha e do óleo de soja, entre outros ingredientes”, completou o dirigente da Coprauf.

A garantia de 30% de acréscimo no preço dos produtos orgânicos certificados também não é uma realidade no PNAE. Os agricultores criticaram que o estado não remunera e nem valoriza quem já investiu na conversão das lavouras convencionais para orgânicas e agroecológicas, e não incentiva quem está em processo de conversão. Com isso, o próprio poder público estaria dificultando o alcance da meta prevista em lei de 100% da merenda escolar da rede pública no Paraná ser orgânica.

Pedágio encarece


O coordenador administrativo da Associação dos Produtores Orgânicos da Região de Londrina (Apol), Valdemir José Batista, lembrou que também é preciso pensar em alternativas em relação ao pedágio. Ele contou que a cooperativa fica a cerca de 20 km da praça de pedágio de Jataizinho, que pratica uma das tarifas mais caras do país. “É preciso pensar em uma forma de isentar ou de cadastrar as cooperativas do PNAE para a redução de mais esse custo, não previsto na definição dos preços pagos pelo programa”, assinalou. Na praça em questão, um caminhão do mesmo modelo que a associação utiliza paga R$ 43,00 a cada passagem no local.

Entre outros pontos mencionados para a abertura de diálogo com o governo do estado sobre o funcionamento do PNAE estão o aumento dos limites por DAP (Declaração de Aptidão ao Pronaf) dos itens e produtos entregues. Hoje, cada agricultor pode entregar, no máximo, R$ 20 mil em produtos para o programa da Alimentação Escolar. “Além do governo estadual precisar aportar mais recursos no programa, ele também pode ter uma postura mais firme na pressão e cobrança junto ao governo federal para aumentar os investimentos”, disse Jean Carlo, da CCA-PR.

A reunião provocada pelos dois deputados com as cooperativas do PNAE apontou como um dos principais encaminhamentos a necessidade de uma audiência para discutir o tema diretamente com o governador Ratinho Júnior (PSD). 

*Com informações da assessoria parlamentar

Thea Tavares


Edição: Lia Bianchini


Leia na íntegra: https://www.brasildefatopr.com.br/2021/09/20/cooperativas-reclamam-das-dificuldades-na-compra-da-alimentacao-escolar-pelo-estado-do-parana


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

“A agricultura familiar do Paraná pede socorro”, alerta deputada

 

Na reunião, foi feita a entrega do documento "Pauta emergencial e estruturante das organizações e movimentos sociais populares do campo e da cidade" - Foto: Thea Tavares

Representantes de organizações da agricultura familiar estiveram em audiência com o secretário da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab-PR), Norberto Ortigara, e com o diretor técnico da Seab-PR, Rubens Ernesto Niederheitmann, nesta terça (21). 

Na pauta, os impactos socioeconômicos da crise hídrica no campo e na cidade, o socorro às famílias produtoras de alimentos nas comunidades rurais do estado, que amargam prejuízos em função da estiagem prolongada e da falta de programa e de planejamento estruturante para prevenir e enfrentar o problema e outras dificuldades.

A reunião foi acompanhada por deputados do Bloco Parlamentar da Agricultura Familiar da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), liderado pela deputada estadual Luciana Rafagnin (PT).

“É preciso socorrer quem planta e produz a comida que chega à mesa da população. Se não tivermos uma ação firme hoje, voltada para o campo, o drama da fome e do empobrecimento da população como um todo só vai aumentar. Sem apoio, as famílias produtoras vão desistir da atividade rural e a situação ficará caótica”, disse a deputada líder do Bloco Parlamentar.

A título de comparação, o deputado Tadeu Veneri (PT) lembrou a crise brutal de abastecimento que decorre dos prejuízos causados pela geada sobre as lavouras de milho safrinha. “O que vem pela frente desenha-se ainda mais grave. Estima-se que em torno de 20% da população paranaense venha a passar fome”, disse.

Demandas da agricultura familiar


Na reunião, foi feita a entrega e leitura do documento "Pauta emergencial e estruturante das organizações e movimentos sociais populares do campo e da cidade" ao secretário Ortigara.

O documento aponta para a necessidade de implementar medidas como a criação de um programa de auxílio emergencial, que garanta renda neste momento a 40 mil famílias de pequenos produtores e camponeses em situação de vulnerabilidade social. Por meio do programa, as famílias receberiam auxílio emergencial no valor de um salário mínimo mensal.

As organizações reivindicam ainda crédito emergencial de custeio, assistência técnica, garantia no abastecimento de água nas propriedades, com estímulo à construção de cisternas, à perfuração de poços artesianos onde há muita escassez de água, programa de irrigação e preservação e proteção das nascentes, mananciais e recuperação das matas ciliares nas margens dos rios. Além de política permanente de subsídio para tarifa social de energia rural e urbana e apoio do governo do estado em políticas no âmbito das responsabilidades do governo federal, como suspensão da importação de leite, fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e também a renegociação das dívidas com vencimentos neste segundo semestre de 2021.

Para cada uma das reivindicações, as entidades da agricultura familiar foram propositivas também em apontar possíveis fontes de recursos para aporte e para priorização dessas medidas, como o Fundo Estadual de Combate à Pobreza e lucros que são gerados pelo setor elétrico, recursos de tributos ou multas ambientais e também da contribuição financeira das barragens (CFURH) para utilização dos recursos hídricos, entre outras alternativas.

O secretário se comprometeu a analisar, junto à sua equipe técnica, um a um os sete pontos do documento para apresentar soluções possíveis. A deputada Luciana solicitou que ele integre ao Grupo de Trabalho que vai analisar a pauta representantes das entidades da agricultura familiar e das organizações rurais e urbanas que discutem essas questões e assinam essas reivindicações.

Thea Tavares

Edição: Lia Bianchini

Leia na íntegra: https://www.brasildefatopr.com.br/2021/09/22/a-agricultura-familiar-do-parana-pede-socorro-alerta-deputada

Nhandereko: o modo de vida que deve mudar a Floresta Estadual Metropolitana em Piraquara

 

Com a retomada dessas terras, tem-se em vista também a recuperação de saberes ancestrais - Foto: Giorgia Prates


Na tarde desta quarta-feira (22), às famílias dos povos Kaingang e Guarani Nhandewa, que estavam acampadas há dois meses na Floresta Estadual de Piraquara (PR), conseguiram a autorização do Estado para permanecer no local. Segundo Eloy Jacintho, liderança indígena no Paraná, a floresta estava abandonada pelo Estado. Ele explica que o projeto de retomada não se limita a ocupar o espaço para a moradia de famílias indígenas: o nhandereko, que é o modo de vida indígena, tem o cuidado com o meio ambiente e, por isso, a revitalização das nascentes e o reflorestamento devem ser empreendidos na Floresta Metropolitana.

Segundo Eloy, “a retomada pretende trazer uma finalidade para essa floresta, que é a preservação pelo nhandereko, o modo de vida indígena de preservar, de cuidar, de pensar nas futuras gerações.”

Por conta do abandono, a Floresta Estadual de Piraquara hoje é ponto de queima de lixo e rota para fuga do presídio no bairro próximo, segundo os moradores da região. Eloy também aponta que o rio que corta a floresta tem sido usado de despejo para o esgoto do município, e que o local, revestido de eucaliptos, está com o solo degradado.

"Os Kaingang reflorestaram com araucárias toda a terra deles, e nos propomos a isso, a revitalização dos rios e ao reflorestamento do local com plantas nativas; [...] Os moradores contam que podiam vir aqui muito antigamente, quando aqui ainda se tinham espaços coletivos, como o campo de futebol. Vinham para passear com suas famílias, e até mesmo nadar no rio", diz Eloy.

Finalidade da retomara é "a preservação pelo nhandereko, o modo de vida indígena de preservar, de cuidar, de pensar nas futuras gerações.” / Foto: Giorgia Prates

 

Com o reflorestamento de espécies nativas, é natural que as nascentes se recuperem, pois é a transpiração da mata que torna o ciclo d’água possível. Eloy garante que a repetição do mesmo processo em outros locais pode levar a uma melhora na seca que assola o Paraná e tem provocado a crise hídrica em Curitiba e região metropolitana.


Outro projeto para a floresta é um centro de formação sobre história e direito indígena. Os Kaingang e os Guarani foram alguns dos primeiros povos habitantes de que se tem conhecimento no estado do Paraná. No século XIX, foram expulsos de suas terras por Dom João VI, que pretendia abrir caminhos para o Porto de Paranaguá. Com o centro de formação, esses povos terão a oportunidade de contar a versão decolonial (que desconstrói a narrativa colonizadora) da história.


“Quando você fala no descobrimento, não existe descobrimento, quando você fala em aldeia, que aldeia? Eu me reconheço em um território Guarani, que transcende os espaços geográficos criados pós colonização. O que é índio? Eu não sou índio, sou Guarani Nhandewa”, explica Eloy.


Reflorestamento de espécies nativas e centro de formação estão nos projetos da retomada / Foto: Giorgia Prates


Até mesmo o conceito de aldeia não partiu dos povos originários, esse agrupamento criado pelo branco serviu para controlar a expansão indígena. Por isso que a diferenciação entre retomada de território e retomada de aldeia é tão importante. A retomada de território transcende os espaços delimitados pelo branco e os ideais de aldeia criados por ele. A noção de cacique, entre outras, é revista por essas famílias, que se propõem a novas formas de organização e liderança.

Sobretudo, com a retomada dessas terras, tem-se em vista também a recuperação de saberes ancestrais, a partir do retorno às línguas nativas, dos cantos sagrados e demais práticas culturais originárias. Só assim esses povos, que vêm sofrendo séculos de extermínio, podem assegurar a sobrevivência de sua história e de seus saberes.

Cora Carvalho


Edição: Lia Bianchini


Leia na íntegra: https://www.brasildefatopr.com.br/2021/09/23/nhandereko-o-modo-de-vida-que-deve-mudar-a-floresta-estadual-metropolitana-em-piraquara


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Os guardiões da vida, dos biomas e do planeta

 

"Os povos originários compõem a formação do povo brasileiro e organizados defendem os interesses do povo", foto - Giorgia Prates

 

A Amazônia legal é onde se concentra a maior parte dos territórios indígenas, que ocupam cerca de 12% do território brasileiro.

A discussão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tese do marco temporal e o projeto de lei 490 demonstram os interesses do agronegócio, que defende e financia o governo Bolsonaro para, em troca, garantir este poder de ataque aos direitos básicos dos povos originários. Povos indígenas organizados e juristas apontam a inconstitucionalidade da tese.

Este mês foi marcado pela diversidade dos povos indígenas que estiveram no acampamento Levante pela Vida e na Marcha das Mulheres Indígenas, uma demonstração histórica da resistência secular. Os povos originários compõem a formação do povo brasileiro e organizados defendem os interesses do povo e da natureza.

Não somente na Amazônia, mas em todos os estados os povos indígenas estão em luta. A exemplo da luta nacional, no Paraná, lideranças de cinco povos retomam território no dia 9 de agosto, em Piraquara (PR), com objetivo de ocupar e reflorestar áreas com espécies nativas.

Juntar-se à luta dos povos originários é assumir o compromisso da luta pela terra e pela natureza, para conter os interesses de exploração desenfreada do agronegócio.

Fernan Silva

Edição: Pedro Carrano

Leia na íntegra: https://www.brasildefatopr.com.br/2021/09/15/editorial-os-guardioes-da-vida-dos-biomas-e-do-planeta