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"Morre um camponês no Noroeste do Paraná": uma triste reflexão para o grupo do LAGEA-DGE-UEM

* Texto originalmente postado em maio de 2014.

Prezados pesquisadores e leitores do Observatório da Questão Agrária no Paraná, em nossa postagem do mês anterior iniciamos com o título “Nasce a Rede Camponesa de Agroecologia do Noroeste do Paraná”. Nesse mês, é com imenso pesar que nossa postagem trás em seu título exatamente o contrário da postagem anterior, e dizemos: “Morre um Camponês no Noroeste do Paraná”, assassinado por atuar na constante batalha por um ideal ainda levado a sério, que era a luta por realmente uma “reforma agrária”, baseada nos princípios do MST, Movimento este, que escolheu para atuar e, também, por defender valores morais dentro dos assentamentos de Reforma Agrária da brigada na qual ele estava inserido.

Não temos fotos de nossas ações de pesquisa, não discutimos nenhum conceito, pensamos apenas em refletir, e refletir sobre algo muito maior, que é a vida, tão preciosa, que nos move em nossas ações e que de uma hora para outra, muitas vezes nos é tirada. Este mês de maio - depois do fato ocorrido - está sendo um mês de muita reflexão de nossa equipe em termos de “olhar novamente para o Noroeste do Paraná e fazer uma re-leitura do processo histórico do ponto de vista da Geografia e ver o que ali acontece na atualidade”.

É fato que todos já sabem do acontecido, mas, estamos falando do assassinato do Valdeir Roque, conhecido popularmente pelo seu apelido “Sopa”. O Sopa era casado, pai de 2 filhos - uma menina de 2 anos e um menino de 8 anos - e vivia no assentamento Sétimo Garibalde localizado no município de Terra Rica . O Sopa, foi assassinado com dois tiros a queima roupa, um tiro na perna, que acertou a artéria e outro na cabeça. O assassinato ocorreu por volta das 19:30h do dia 03 de maio, na frente da sua casa e, na presença de seu filho de 8 anos. O fato ocorreu assim: Ele foi chamado por um homem que pediu se ele tinha frango para vender, e ele disse: “você quer para hoje, ou para amanha” e o assassino disse: “é para agora”, sacou da arma e atirou. Subiu em uma moto, outra pessoa o aguardava e fugiram.

Segundo informações ele já vinha sendo ameaçado. A causa do assassinato, ao que tudo indica, foi devido a sua atuação e postura de defender os princípios do MST, inclusive dentro do próprio assentamento, isto incomodava muitas pessoas.

Isso tudo levou-nos a seguinte reflexão esse mês: nós que trabalhamos e dedicamos nossos estudos ao Noroeste do Paraná, achávamos que na atualidade, essa região, estava em outro contexto histórico de luta, aquela que se faz “na terra”, pois estamos em um momento de construção de uma Rede de Agroecologia, fazendo seminários para discutirmos “o como fazer, para surgir a vida” através das sementes, e, de repente nos deparamos com fantasmas do passado a espreita e na escuridão - a violência e a morte - , como se estivéssemos nos tempos de “luta pela terra”, pois de forma “muito tranquila” esse “ser humano”, saca de uma arma e retira a vida de pai de família, como se isso fosse algo extremamente natural.

O Noroeste do Paraná, na década de 1990, passou pelo processo de ocupação de terras, tendo no seu bojo a violência e assassinatos. Como nesse período ocorriam as ocupações, a violência era sentida como a correlação de forças entre o latifúndio que era ocupado e a reforma agrária que se implantava naquele território.

A partir das ocupações com as áreas já definidas como Projetos de Assentamentos entramos em outro momento, pois pensávamos que a luta agora estava sendo aquela que se faz na terra e, nesse sentido iniciou-se entre os camponeses assentados os trabalhos e esforços na busca de um modelo produtivo adequado aos projetos de assentamentos, buscando um conhecimento apropriado às áreas de reforma agrária. Diante disto, o debate tem sido direcionado a um modelo de produção de alimentos com os pressupostos da agroecologia.

Quando falamos de estrutura agrária, vários elementos estão envolvidos e, um deles precisa ser analisado com relevância ainda na atualidade ali no Noroeste, isto é, a “violência no campo”. Ela é como um termômetro da questão agrária que como uma febre repentina faz parar todo o processo de avanço estrutural da reforma, pois quando de sobressalto militantes da reforma agrária são executados, voltamos nossa atenção novamente para o conflito agrário. E aí em termos de comparação a uma doença, nos questionamos.

Qual é o remédio para esse vírus letal, que destrói o “ser” humano chamado violência?

Isso algum dia acabará, para os negros, índios, sem teto, sem terra e, todos os pobres dessa sociedade?

Assim, refletindo, questionando, trabalhando, aprendendo e ensinando....vamos caminhando na luta constante de atuação para uma sociedade melhor.

Sopa....onde quer que você esteja... MUITO OBRIGADA por tudo que fizeste pela Reforma Agrária no Noroeste do Paraná.

Grupo de Trabalho do Laboratório de Geografia Agrária – DGE  UEM.

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