segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A LUTA DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS NO PARANÁ




Na sociedade atual, a energia é central para a reprodução do capital, pois é utilizada como forma de acelerar a produtividade do trabalho dos trabalhadores, gerando maior volume de valor excedente para apropriação privada, objetivo principal no modo de produção capitalista.
Dentre as diferentes formas de produção de energia, a hidroelétrica tem sido a tecnologia “mais eficiente” quando comparada com as demais fontes de produção de eletricidade. Ao ressaltar esses argumentos, no entanto, aqueles que controlam o setor omitem para quê e para quem ele é planejado.
Para os setores que controlam a energia no Brasil, Modelo Energético refere-se às fontes/matrizes de produção da energia, cuja finalidade é responder à demanda do mercado, à voracidade das grandes corporações que controlam a indústria de eletricidade, à indústria eletrointensiva e no aumento da produtividade a qualquer preço.
A energia é vista como mercadoria e não como bem público. Está organizado para priorizar e atender a uma estratégia de desenvolvimento do capital internacional especulativo e de cadeias industriais eletrointensivas exportadoras de matéria prima.
O setor elétrico nacional é controlado pelo capital internacional especulativo, empresas transnacionais, bancos e fundos internacionais representados por corporações mundiais como a Suez Tractebel, AES, Duke, EDP, Iberdrola, Endesa (Enel), CPFL (Camargo Correa); Odebrecht,Queiroz Galvão, Votorantim, Vale, Alcoa, Billiton, ISA, Energisa, JP Morgan, HSBC, BTG Pactual, etc. Até mesmo as estatais estão nas mãos do capital privado: 40% da Eletrobrás; 78% da CEMIG; 65% da Cesp, 79% da Copel, 80% da Celesc.
As agências reguladoras (ANEEL), Ministério de Minas e Energia (MME), Empresa de Planejamento (EPE), Câmara de Comercialização de Energia (CCEE) e até o Operador Nacional do Sistema (ONS) e estatais estão à serviço dos empresários. O BNDES é o principal financiador das usinas, repassando dinheiro público para as transnacionais, enquanto que estatais são proibidas de ter a maioria das ações nas usinas ou acessar financiamento exclusivo.
O território brasileiro é foco de disputa internacional do capital, pois concentra as principais reservas estratégicas de “base elevada de produtividade natural”. O Brasil possui as maiores e melhores reservas de rios e água para geração de eletricidade, 260 mil MW de potência, dos quais só 30% foram utilizados até agora. A América Latina tem potencial de 730 mil MW.
A origem do problema esta na privatização do setor elétrico nacional, onde cerca de 25 empresas de energia elétrica foram transferidas ao controle privado, assim como grande parte das ações das demais estatais.
A riqueza extraordinária gerada na energia, nas diferentes áreas, não tem sido revertida em benefício prioritário ao povo brasileiro. Além disso, impuseram um sistema de tarifas que é a principal característica do modelo, o chamado sistema tarifário por incentivo, onde permite privilégios aos controladores da cadeia industrial elétrica e aos grandes consumidores e penaliza a população brasileira, através das tarifas de energia que foram elevadas a patamares internacionais, como se estivéssemos produzindo energia térmica da mais cara do país.
Por isso que a conta de luz dos brasileiros é uma das mais altas mundialmente, quando deveria ser o contrário. Portanto, a mercantilização da energia, através do modelo privado, transformou a energia no principal negócio dos setores privados.
O modelo energético atual, de padrão e herança autoritária, tecnocrática e neoliberal afeta enormemente as populações no campo e na cidade. Desde os anos 70, atingidos e atingidas por barragens fazem a luta para defender e garantir seus direitos, muito em decorrência da enorme contradição colocada no setor elétrico do nosso país.
Há décadas o Estado brasileiro desenvolveu um marco regulatório forte para garantir a construção das hidrelétricas em todas suas etapas, desde o planejamento, concessão e até a liberação de recursos financeiros necessários. Entretanto, em puro contraste, não existe nenhuma política específica que garanta os direitos das populações atingidas que são obrigadas a sair de suas terras para dar lugar ao lago.
Reunido em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 22 de novembro de 2010, o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana aprovou o relatório da Comissão Especial que, durante quatro anos, analisou denúncias de violações de direitos humanos no processo de implantação de barragens no Brasil.
A Comissão identificou, nos casos analisados, um conjunto de 16 direitos humanos sistematicamente violados. A partir deste estudo, foi possível verificar que existe um padrão nacional de violação dos direitos humanos em barragens, onde os principais responsáveis são as empresas donas dos empreendimentos, os governos e o Estado brasileiro. Este padrão de tratamento tem causado empobrecimento generalizado e piora das condições de vida das populações atingidas por barragens.
Entre as principais violações, está a ausência de uma política nacional que reconheça e garanta os direitos das populações atingidas. O propósito é garantir, em lei, através da aprovação da Política Nacional dos Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB) os direitos dos atingidos e atingidas por barragens, para servir de instrumento para a luta, e ser um parâmetro a ser seguido por qualquer empresa, na construção de qualquer barragem, em qualquer lugar do território nacional.

Projetos de UHEs no Paraná
O discurso do desenvolvimento e a falta de energia sempre serviram como justificativa para o atual modelo de produção de energia no Brasil. É seguindo está lógica que o estado do Paraná se tornou um dos maiores produtores de energia elétrica do país. Hoje é responsável por 20% da produção nacional, com 60% do seu potencial já explorado. A previsão consta a construção de mais 16 grandes barragens no estado para o próximo período desalojando pelo menos uma média de 30 mil pessoas.
Na Bacia do Rio Chopim, estão previstos 12 empreendimentos, que atingirão de forma direta os municípios de Palmas, Coronel Domingos Soares, Mangueirinha, Clevelândia, Honório Serpa, Coronel Vivida, Verê, Itapejara do Oeste, São João, Cruzeiro do Iguaçu, Dois Vizinhos e São Jorge do Oeste.
Na Bacia do Rio Iguaçu, já operam cinco hidrelétricas de grande porte: Foz do Areia, Usina Hidrelétrica Governador Ney Aminthas de Barros Braga - antiga Salto Segredo, Salto Caxias, Salto Osório e Salto Santiago e está em construção a Usina Hidrelétrica Baixo Iguaçu (Capanema, Capitão Leônidas Marques, Planalto, Realeza e Nova Prata do Iguaçu). Este é o último empreendimento energético previsto para o principal rio paranaense.
No Rio Piquiri, estão previstas a construção de 16 UHEs, caso realizadas, os empreendimentos poderão atingir 33 municípios e mais de 2.500 famílias das regiões centro, oeste e noroeste do estado do Paraná. As UHEs de Apertados e Ercilância são os projetos mais avançados.
No Rio Ivaí, estão projetadas 8 usinas hidrelétricas e no Rio Tibají 5 UHEs, como pode ser observado no quadro abaixo:

Regiões/Rios
Qta de Usinas projetadas
Qta de fam. atingidas
Qta de Municípios
Cidades Pólo
1
Rio Chopin
12 Usinas Hidrelétricas
1.200 famílias
10 municípios
Fco Beltrão/ Pato Branco
2
Rio Irati
06 usinas
250 famílias
03 municípios
Pato Branco
3
Rio Iguaçu
01 usina
1025 famílias
05 municípios
Capanema
4
Rio Piquiri
16 usinas
800 famílias
29 municípios
Palotina/ Toledo/ Cvel/ Umuarama
5
Rio Ivaí
08 usinas
700 famílias
15 municípios
Campo Mourão/ Maringá/Paranavaí
6
Rio Tibagi
05 usinas (incluindo Mauá)
2.000 famílias
10 municípios
Ponta Grossa/ Londrina

A projeção de tantas barragens no Paraná, bem como no Brasil, reafirma o projeto energético que está consolidado e a quem estas construções vão beneficiar. Mesmo em fase inicial, já causam transtornos na vida da população atingida, resultando num ambiente de insegurança, desestimulando as famílias a investir tempo e recursos na unidade de produção. A população, de forma geral também é atingida, pois convive com a atual política energética, onde todo o custo é transferido para a tarifa da energia.
 Desta forma, o Movimento dos Atingidos por Barragens, afirma que é precisa lutar por um projeto popular para energia, entendendo que o problema central é a política energética. O modelo energético. Não basta discutir somente a matriz, apesar de sua importância. Atuar na política energética pressupõe incidir decisivamente no planejamento, na organização e controle da produção e distribuição da energia, da riqueza gerada e no controle sobre as reservas estratégicas de energia de base de elevada produtividade natural.

Água e energia com soberania, distribuição da riqueza e controle popular!


MAB

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pistoleiros atacam acampamento Herdeiros da Terra de 1º de Maio em Rio Bonito do Iguaçu-PR

Na madrugada desta quarta-feira (26), mais de 30 tiros foram disparados contra os Sem Terra do Acampamento Herdeiros da Terra de 1º Maio, em Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná. Homens armados dispararam na entrada do acampamento contra os trabalhadores. Ninguém ficou ferido. Informações apontam que há poucos dias a Araupel contratou seguranças, e que esses estavam ameaçando os acampados.

Os Sem Terra fizeram o boletim de ocorrência e aguardam apuração imediata do caso. Em nota a direção estadual da organização diz "que espera que medidas sejam tomadas com urgência para garantir a proteção dos Sem Terra e a punição dos executores e mandantes do atentado".

Carta dos indígenas da Tekoha Yhovy - Guaíra-PR

O Laboratório e Grupo de Pesquisa da Geografia das Lutas no Campo e na Cidade (GEOLUTAS), em sintonia com a luta dos povos originários no Oeste do Paraná, socializa carta escrita pelos indígenas Avá-Guarani da Tekoha Yhovy em Guaíra/PR. A carta expressa um pouco da situação que se encontram os Guarani no Oeste do Paraná ao mesmo tempo que reflete sobre a humanidade que estamos construindo, se é que podemos chamar de humanidade. Segue a carta na esperança de que a mesma se some a outras ações que contribuam para o fim das injustiças.

A Tekoha Yhovy vem por meio desta carta feita na própria Tekoha que fica próximo ao Bairro Eletrosul em Guaíra-PR vem através deste prerstar solidariedade as familhas que ja perderam seus entes queridos durante esses longos anos de luta pela terra que ja se arrasta por décadas,e pedir urgentemente ações do MPF que sejamos atendidos e que os processos demarcatórios sejam agilizados pela FUNAI.
Nós lideranças Guaranis do Oeste do Paraná, em específico Guaíra e Terra Roxa, viemos através deste manifestar em Público a nossa preocupação em relação as “mortes por suicídio” que vem acontecendo nas nossas Tekohas.

Como sabemos a sociedade ao nosso redor tem nos tratado como inimigos, como pragas ou seres desprezíveis, desde que se iniciou uma Campanha Contra a demarcação de nossas terras, tendo participação de vários municípios, sindicatos rurais e sindicatos de comerciantes, sendo orientados também por Políticos da Bancada Ruralista e Bancada Evangélica. Nesse período de campanha que acirrou o racismo e o preconceito contra nosso povo Guarani, nosso povo ficou acuado sem liberdade de sair para cidade e os jovens de ir pra escola, e funcionários indígenas foram demitidos de todos campos de trabalho, onde já sabemos que a maioria da mão de obra era indígena, com isso jovens sem perspectivas de ter uma formação escolar e profissional levou jovens a cometer suicídio, por ver como somos tratados pela sociedade e pelo Estado brasileiro, desde sempre nos foram negados nossos direitos sobre as Terras Tradicionais, direito a políticas públicas de saúde e educação, e também o direito a existência, já que os políticos sempre negaram nossa existência dizendo que somos estrangeiros ou Paraguaios travestidos de índios.

Isso também levou as escolas públicas da região a trancarem as crianças indígenas nas salas de aula para não comerem a merenda das escolas na hora do recreio e, também, para não se misturarem aos alunos não indígenas, e os casos de pais de alunos que passaram a querer assistir às aulas nas escolas, com a justificativa de que os “indígenas representavam perigos aos seus filhos” e também os casos das escolas que passaram a negar vagas para os alunos indígenas. A partir disso, jovens começaram a não sentir mais vontade de ir mais as escolas e a esperança de vida e futuro para os guarani já passou a ser apenas um grande vazio na cabeça desses jovens, o que levou muitos a jogar as suas vidas fora, e temos uma clara relação das mortes na lista abaixo:
  • 15-07-2010 - Carlito Araújo 19 anos
  • 13-09-2011 - Alair Velasquez 17 anos
  • 12-04-2012 - Octaciano Lopes Noceda 56 anos
  • 05-12-2012 - Josimar Fátima Riquelme 
  • 10-04-2013 - Sidinei Medina 19 anos
  • 13-06-2013 - Emerson Galeano 17 anos
  • 01-01-2014 - Augustinho Barreto Benites 17 anos
  • 25-02-2015 - Holivanderson Alvares 19 anos
  • 27-03-2015 - Savino Rivarola 18 anos
  • 06-07-2015 - Rafael Montiel Santa Cruz 60 anos
  • 27–07–2015 - Cristina Benitez 19 anos

Como podemos observar, o índice de suicídios por parte dos jovens é enorme ainda mais em meio à essa gritante situação de conflito Territorial na qual vivemos, em situação de acampamento, sem água potável, luz, e sem saúde e educação de qualidade. Vivemos acampados e ameaçados diariamente pela organização dos ruralistas de vários municípios da região. E como vemos também o Estado Brasileiro se mantém omisso diante da situação sub humana a qual vivemos todos os dias com nossos filhos, pais e avós, e não é difícil saber que isso vem acontecendo em nossos acampamentos, pois não temos essa situação preocupante nas aldeias que já são reservas indígenas, por exemplo Ocoy em São Miguel do Iguaçu e as Aldeias de Diamante D’oeste. Nós aqui ainda temos mortes por assassinato, um desses, a morte de Bernardino D’avalo Goularte, assassinado a tiros de arma de fogo, e Ananias Nunes que foi linchado por não índios na cidade após ter matado a esposa a facadas, bom reconhecemos o crime pela parte dele, mas ele tinha o direito que todo ser humano tem que é de ter um julgamento justo, e temos ainda a estranha morte na Tekoha Marangatu, onde um guarani foi degolado e até hoje não sabemos por quem e por quê motivos.

Com isso, só temos a declarar o nosso sentimento de preocupação e solidariedade as famílias que já perderam seus filhos em meio a essa luta desigual que envolve poder-de-fogo e poder financeiro de um lado, enquanto do nosso lado apenas a tradição e cultura de nosso povo, que embora enfraquecida ainda buscamos fortalecer desde as nossas raízes. Com isso, depositamos mais uma vez a nossa confiança no MPF para que tome medidas necessárias de maneira a atender nossas demandas pela demarcação mais urgente possível das nossas terras, pois já estamos cansados de perder familiares tudo pela falta de perspectivas e por termos sempre sido deixados de lado pelo fato de nós guaranis sermos um povo pacífico e calmo.

Mas hoje, estamos sendo discriminados, humilhados, violentados de maneira bárbara pela política do Estado brasileiro e ações dos governos federal, estadual e municipal, e também por grandes empreendimentos de empresas e fazendeiros. O que nos levou a esses longos anos de espera pela demarcação de nossos territórios, e também a sofrer calados todos os tipos de violações de nossos direitos por um estado que colonizou nossas terras e por um progresso que matou culturas e continua matando nossos povos indígenas através de decretos e portarias, nos negando o direito de existir e o direito de sermos o que somos.

Temos também, como exemplo, o Mato Grosso do Sul onde o índice de suicídio e também de assassinatos é muito maior, e vemos que Guaíra e Terra Roxa está indo para o mesmo caminho, enquanto quem tem o poder da caneta fica omisso de maneira covarde e deixa o nosso povo morrer assassinado por pistoleiros de fazendeiros ou por muita espera pela garantia da demarcação da nossa Terra.

Pedimos ao MPF segurança para as nossas Tekohas, devido as ameaças que constantemente temos sofrido, pois de nada adiantaria tomar atitudes só depois que as coisas já aconteceram, temos que agir de modo a prevenir as ações criminosas dessas organizações que estão fomentando o ódio e a violência contra o nosso povo. Como, por exemplo, vem sendo feito pela ONGDIP, que vem trabalhando com discurso de que somos orquestrados pela FUNAI ou por órgãos estrangeiros e também fazendo os nossos vizinhos da cidade a se voltarem contra nós, com o discurso que vamos tomar Guaíra inteira para ser uma Terra indígena, apesar de que Guaíra é um grande território tradicional guarani, mas queremos ter um espaço físico e cultural próprio, não uma cidade.

domingo, 20 de setembro de 2015

Por educação do campo

Ângela Massumi Katuta*

Tempos de exasperação de ânimos são particularmente favoráveis ao exercício da violência. No âmbito da sociedade, ainda que isso não signifique ataque direto à integridade física de quem quer que seja, necessariamente revelam uma disputa em torno de bens comuns ou recursos cujo acesso interfere em garantias e direitos individuais e coletivos.

Esse é o contexto que demarca os limites e as possibilidades da Educação do Campo, uma educação que nasce com o objetivo de se fazer emancipadora juntamente com o campesinato, nesse momento de particular fortalecimento do latifúndio no Brasil. Como forma de fugir de constatações simplistas, em vista da conjuntura de fortalecimento de um poderoso lobby ruralista, atuando em estratégicas arenas políticas que incluem as esferas institucionais do poder executivo, legislativo e judiciário, buscamos trazer a público um contraponto em reflexões que convidam ao posicionamento político e engajamento social. 

Dessa vez somos brindados pelos apontamentos de Ângela Massumi Katuta, que nos concedeu uma entrevista por ocasião de sua participação na banca de avaliação de uma dissertação de mestrado que investigou a relação entre a escola e a juventude camponesa na região de Londrina, defendida no Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Londrina.

Malgrado derrotas estruturais e duradouras, como as determinadas pelo que os movimentos sociais denominaram de Lei da Grilagem (Lei 11.952/2009), do Código do Desmatamento (Lei 12.727/2012) e agora os desdobramentos ainda incertos das manobras ruralistas contra a desapropriação das terras flagradas com trabalho escravo (Instrução Normativa Incra 80/2015), acreditamos no poder transformador do conhecimento e é esse o sentido da Educação do Campo.

Se há algo que tem conspirado a favor dos ruralistas é a desinformação da sociedade sobre a contribuição dos camponeses para a sociedadebrasileira, importância essa que vai além dos 38% do valor da produção agropecuária medidos pelo IBGE. Seu caráter desconcentrado distribui renda e dinamiza as economias locais, gerando círculos virtuosos que em tudo se opõe à lógica do latifúndio improdutivo, que nada produz, ou do latifúndio produtivo, que não distribui, salvo os custos ambientais e sociais da atividade.

Essas são algumas das externalidades que estão na raiz da articulação ruralista, cuja razão de ser são as fraudes fundiárias que precisam ser legalizadas, a improdutividade que se faz necessário acobertar, as práticas ambientais criminosas a serem justificadas em nome da produção de alimentos que provém majoritariamente da agricultura camponesa.

Invisibilizar o campesinato é, assim, condição, para que essa estratégia surta efeito, do mesmo modo que disso depende o poder de anulação das pautas que impliquem partilha dos bônus daí advindos. A julgar pelas posições inscritas na arena política do momento, não há sinais de que os poderosos estejam dispostos a renunciara frações de terra ou recursos públicos cuja captura se dá em prejuízo dos camponeses. A isso tem servido o discurso da eficiência do agronegócio, essa expressão política que encobre a voracidade desdenhosa de fronteiras éticas ou territoriais.

Por isso, perguntamos à Ângela M. Katuta qual o sentido em demandar investimentos do Estado brasileiro, que supõe medidas do governo federal e também do governo estadual, em Educação do Campo. Vejamos suas considerações:

"O significado do Estado investir em Educação do Campo vai além da dimensão escolar, pois se trata de ampliar políticas de produção de alimentos e, obviamente isso tem desdobramentos na economia, pois permite a manutenção do preço da cesta básica, da alimentação. Trata-se também de investir em projetos efetivamente voltados para a sustentabilidade, porque a gente sabe que o agronegócio, independente do que se diga, está ligado a uma diminuição da biodiversidade ecossistêmica, da poluição dos aquíferos, do ar, à contaminação das pessoas, aumento de doenças ligadas à ingestão de agrotóxicos etc. Enfim, há um conjunto de elementos e de problemáticas associadas à produção de commodities, que também decorre do forte investimento no setor e do pequeno investimento que o Estado ultimamente tem feito na Educação do Campo.

O investimento na Educação do Campo beneficia não somente os agricultores, os camponeses mas, também, generalizadamente, todas as pessoas da cidade, ou enfim, todos os seres humanos porque nós precisamos nos alimentar. Investir na Educação do Campo é investir na permanência do agricultor familiar que produz alimentos e é nessa perspectiva que alguns movimentos sociais fazem a defesa de permanência no campo, articulada com a produção de alimentos saudáveis.

Então há uma questão ligada à saúde pública, tanto do campo quanto da cidade e isso tem a ver também com investimento em outro projeto societário, mais democrático, com uma desigualdade social menor, uma distribuição de renda tanto na cidade como no campo muito melhor. Isso quer dizer investir num outro projeto societário, daí o tensionamento na Educação do Campo: a Educação do Campo traz tensionamento porquê implica investir num outro projeto societário contra as relações do modo capitalista de produção."

Ao ser convidada a avaliar a situação da Educação do Campo em termos de investimento, avanços institucionais e os recuos na sua implementação e/ou consolidação, a professora disse o seguinte:

"Trata-se de um campo bem complexo, até porque os investimentos e as lutas históricas dos movimentos sociais resultaram em avanços na perspectiva de construção de instrumentos legais: há a conquista do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), há também uma série de leis e políticas como desdobramentos das demandas dos movimentos sociais. Porém, ao mesmo tempo, a gente também tem recuos, por exemplo, o fechamento generalizado das escolas do campo no país.

No estado do Paraná também não é muito diferente, embora o Paraná se distinga por conta da atuação e da organização da Articulação Estadual da Educação do Campo. Do ponto de vista da articulação, da organização social dos movimentos sociais que demandam Educação do Campo, o Paraná é um dos estados que tem uma articulação muito forte, tanto que uma das lideranças aqui do Paraná é a única pessoa de movimentos sociais que tem assento no Fórum Nacional de Educação do Campo.

Isso mostra, obviamente, uma capacidade de articulação dos movimentos sociais do Paraná mas, por outro lado, nós temos investidas cada vez mais intensas e fortes, no sentido da divisão do dinheiro do PRONERA para que seja destinado a empresas de educação, então a gente tem avanços e recuos.

Um dos avanços, pelo menos na atual conjuntura, são os editais do Programa Nacional do Livro Didático para os livros da Educação do Campo. Mas o que fazem as editoras? Comoelas são empresas de livros, trocam uma figura, uma imagem ou outra sem fazer uma mudança de conteúdo e de forma para a Educação do Campo. Para elas, os livros são meramente mercadorias, então, nesse campo temos avanços legais, institucionais, jurídicos, mas também tem recuos, sempre há muito tensionamento.

No Paraná, faz mais de quatro anos que a atual gestão vem investindo no recuo do ponto de vista das concepções de Educação do Campo: tem fechado escolas e não tem fortalecido as diretrizes curriculares estaduais da Educação do Campo, que foi uma das primeiras a surgir no Brasil, isso é um marco no estado do Paraná. O governo federal também não tem adotado políticas para fortalecer as escolas do campo, pelo contrário, tem praticado uma política de fechamento das mesmas à medida que até cria elementos dificultadores mas não constrói outros de fiscalização, de denúncia, de prestação de contas do fechamento.

Em função disso, a Articulação Estadual da Educação do Campo elaborou uma cartilha que foi amplamente divulgada na 14ª Jornada de Agroecologia de Irati, para evitar o fechamento das escolas do campo. A questão do fechamento das escolas do campo no Paraná tem sido tão séria que a articulação estadual fez um material para evitar que isso aconteça. O caminho é a organização das comunidades, então podemos falar que se há avanços eles se devem à organização dos movimentos sociais colocados nacionalmente, apoiados pelas universidades.

Quanto aos recuos, eles estão relacionados aos estados que tem o agronegócio muito forte: no Paraná, tem havido fortes investidas contra essa estruturação inicial implementada nos governos anteriores em atendimento às demandas e organização dos movimentos sociais. O governo estadual anterior [Roberto Requião] fez um investimento efetivo na materialização das políticas voltadas para a Educação do Campo no Paraná em diálogo com os movimentos sociais, e agora há um notável refluxo dessas políticas.

Percebe-se estratégias ligadas à organização das equipes pedagógicas e ligadas também à forma como se trabalha na escola; a ausência de políticas de formação continuada para os professores que trabalham nas escolas do campo, tudo isso configura uma estratégia de desmantelamento do que foi construído na gestão anterior e o que resiste o faz por muita força e engajamento políticos dos movimentos sociais."

Que desafios dessa ordem não façam esmorecer os camponeses, os educadores e educadoras e todos os que não se furtam ao árduo exercício de assentar a cada dia um pequeno tijolo no muro da civilização, haja o que houver.

* Ângela Massumi Katuta é professora da UFPR e membro da rede de pesquisadores da Questão Agrária no Paraná. 

Entrevista: Izabele Vila Real Diamante e Silas Rafael da Fonseca. Transcrição: Thiago da Silva Melo. 

Texto e edição: Eliane Tomiasi Paulino - LATEC/UEL