quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

No Paraná, acampamento do MST erradica analfabetismo com o “Sim, eu posso!”

A comunidade fica em Centenário do Sul, norte do estado, onde o índice de analfabetismo chegava a 19% em 2010

WhatsApp Image 2017-12-10 at 19.40.16.jpeg
Acampamento Fidel Castro, no município de Centenário do Sul, onde vivem os formandos. Ali, 400 famílias enfrentam há 9 anos a luta contra o agronegócio da cana-de-açúcar. Foto: Arquivo MST

Por Igor de Nadai* da Página do MST


Neste caloroso sábado (9), típico do Norte do Paraná, moradores do campo e da cidades, junto de 24 educandos e 10 educadores e educadoras, comemoraram a formatura de quatro turmas de alfabetização baseadas no método cubano “Yo, si Puedo!”, o “Sim, eu posso!”, na versão brasileira.
A festa ocorreu no acampamento Fidel Castro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no município de Centenário do Sul, onde vivem os formandos. Ali, 400 famílias enfrentam há 9 anos a luta contra o agronegócio da cana-de-açúcar.

Como é sabido, esse modelo é gerador de diversas mazelas ambientais, econômicas e sociais para a sociedade, entre elas a reprodução de uma das mais cruéis chagas do capitalismo: o analfabetismo e a ignorância. Segundo o último Censo, realizado pelo IBGE em 2010, havia 2.109 analfabetos na cidade, cerca de 19% da população com mais de 15 anos.


Um batalha contra o analfabetismo

“As massas fizeram essa sua luta. Só assim foi possível ganhar essa batalha”. Assim descreve Fidel Castro acerca da tarefa de erradicar o analfabetismo em Cuba: uma batalha! Batalha, pois exige o compromisso de todo o povo, enfrentando séculos de ignorância e exclusão, contra a vontade dos latifundiários e dos poderosos.


Maikon Veirick, jovem coordenador do programa no acampamento, conta que para implementar o projeto foi feito um amplo debate e consulta em toda a comunidade. A intenção era levantar o número de analfabetos e saber se a comunidade topava o desafio de enfrentar essa grande batalha contra o analfabetismo.

A partir disso, juntamente com o setor de educação do MST, foi iniciada a proposta com a organização de quatro turmas com 10 educadores e educadoras da própria comunidade. Para Fernando Herdt, do setor de educação do MST, esses fatores foram decisivos para o sucesso do projeto: “A comunidade toda envolvida e os educadores conhecerem profundamente a realidade local são fatores que contribuíram muito para a baixíssima taxa de desistência e eficácia do método”.

Beatriz, de 40 anos, é uma das educadora que vive na comunidade. Ela explica como foram as aulas para que os educandos não desanimassem: “Além de sentirem progresso na leitura de números e códigos, as aulas devem ser momentos sempre muito acolhedores, pois a realidade já diz “não!” diariamente para esses sujeitos, marcados pela exclusão e desumanização”.


Tempo de aprender e ensinar
“Sempre é tempo de aprender, sempre é tempo de ensinar!”. Essa foi a palavra de ordem escolhida pelas turmas do programa no acampamento, que simboliza bem o sentimento de dona Matilde, de 64 anos, acampada na luta pela terra há 4 anos.
WhatsApp Image 2017-12-10 at 19.39.38.jpeg

Trabalhadora doméstica desde muito cedo nas cidades do Paraná, só estudou durante um ano, e, nesse período, só pôde aprender algumas letras. “Agora posso ler, e não preciso mais ficar soletrando. Minha autoestima aumentou muito, sabe? Eu e meu marido viajamos muito e eu não conseguia ler as placas, então não sabia por onde eu estava passando. Agora eu sei, tenho confiança e sei pra onde estou indo”. Foto: Arquivo MST

Vem de longe e vai continuar
O Método de alfabetização “Sim, eu posso!” foi elaborado em Cuba. Por meio das brigadas de alfabetização “Pátria ou Morte” e "Conrado Benítez", foi uma das principais ferramentas na superação do analfabetismo naquele país, que ainda no início da década de 1960 já declarava-se território livre do analfabetismo.
Traduzido em mais de 30 línguas estrangeiras, o método se irradiou por todo o mundo devido a sua eficácia e rapidez. Neste mesmo sentido, recentemente, Bolívia e Venezuela foram reconhecidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como países que superaram o analfabetismo, utilizando o método cubano.
“Fidel foi um batalhador, da classe pobre, né?”. É assim que dona Matilde nos conta sobre Fidel e sua ligação com o acampamento. Para propiciar que, além do alfabeto, os educandos conhecessem e refletissem sobre a realidade que vivem, histórias sobre Cuba e sobre a Revolução foram trabalhadas nas aulas, proporcionando assim um avanço na compreensão do por que a comunidade homenageou o acampamento com o nome de Fidel.
Um feliz encontro com a História , um encontro de um povo que segue o legado humanizador da revolução cubana e, que assim, dá um largo passo na libertação de sua gente. As turmas não param por aí. Elas se ampliarão e ingressarão no edital do “Paraná alfabetizado”, que constitui-se na continuidade da alfabetização utilizando a proposta dos círculos de cultura, elaboradas por Paulo Freire.
*Igor de Nadai é educador e integrante do Coletivo de Juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

INTERVENÇÃO FEDERAL DESPEJA DEZENAS DE FAMÍLIAS NO INTERIOR DO PARANÁ

Reintegração de posse foi autorizada pelo Supremo Tribunal de Justiça a pedido da madeireira Zattar

 

 



  Duas comunidades rurais de mais de 25 anos de existência foram surpreendidas, na manhã desta sexta-feira (1º), por um grande aparato policial de reintegração de posse no município de Pinhão, no centro-sul do Paraná. Dezenas de famílias foram expulsas de suas casas devido a uma intervenção federal autorizada pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ), atendendo pedido da indústria madeireira Zattar.



Segundo relatos dos moradores, a operação da PM do Paraná começou logo nas primeiras horas do dia. Os moradores foram expulsos de suas casas e na sequência as máquinas da empresa destruíram as residências, algumas delas de alvenaria. Escola, padaria comunitária e igreja também foram demolidas. A Prefeitura de Pinhão auxiliou no trabalho de remoção das famílias para outras localidades, porém a situação de moradia dos despejados segue indefinida.



Na semana passada uma audiência pública foi realizada em Pinhão para tratar dos problemas fundiários que perduram por décadas na região e tem raiz nos conflitos entre posseiros e madeireiras. Segundo o secretário de Assuntos Fundiários do Estado do Paraná, Hamilton Serighelli, haviam tratativas de negociação entre o proprietário e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) até o ano passado, porém com a mudança no governo federal, a situação estagnou.



Segundo Serighelli, o proprietário chegou a oferecer 10 mil alqueires para o Incra, porém a atual gestão do órgão rompeu as negociações. “Estivemos em Brasília com o Zattar para tratar dessa situação, ainda na época do Nilton Bezerra [ex-superintendente do Incra no Paraná]. Na oportunidade conseguimos barrar essa intervenção federal por duas vezes, abrindo negociações entre o Incra e o Zattar, porém isso parou com a mudança de governo”, comentou.



A ameaça de despejos em Pinhão foi alertada na semana passada pelo prefeito de Pinhão, Odir Gotardi, que apontou que a questão agrária na região tinha dois caminhos a seguir: o do desenvolvimento social ou do caos social. “Se esses despejos forem cumpridos em Pinhão fatalmente teremos milhares de pessoas destelhadas. Será uma verdadeira tragédia. Estamos com essa espada sobre nossas cabeças”, disse o prefeito, em audiência pública no dia 27 de novembro.



Caso emblemático

A questão agrária em Pinhão é uma das mais emblemáticas da luta pela terra no Paraná, tendo seus primórdios ainda no início do século 20, no conflito entre posseiros e empresas particulares, em especial a madeireira Zattar, que chegou na região na década de 40. A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores que já habitavam as terras desde o Brasil imperial. Elas foram expulsas e assim a indústria constituiu um dos maiores complexos latifundiários do Paraná.



Estima-se que antes da chegada da empresa quase 2 mil famílias de posseiros viviam em comunidades tradicionais, conhecidas como faxinais. A madeireira chegou a ocupar 80 mil hectares na região centro-sul do estado. Já para os faxinalenses instalou-se uma luta desigual pela titularidade das terras. Atualmente são 12 acampamentos sem terra em uma área total de 60 mil hectares e aproximadamente dois mil acampados. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) classifica a região como o terceiro maior polo de reforma agrária no Estado.

 
Postado originalmente: https://www.brasildefato.com.br/2017/12/01/intervencao-federal-despeja-mais-de-100-familias-no-interior-do-parana/

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

MANIFESTO DE APOIO ÀS COMINIDADES GUARANI DO OESTE DO PARANÁ



Manifesto de apoio às comunidades Guarani do Oeste do Paraná
As organizações que assinam o presente manifesto vem a público manifestar a sua preocupação com as recentes mobilizações de parte da população dos municípios de Guaíra e Terra Roxa, Oeste do Paraná, com discurso de ódio contrário à presença das comunidades Guarani em suas áreas de ocupação tradicional, cujos estudos estão sendo realizados pela Fundação Nacional do Índio

Nos últimos meses o Grupo Técnico destinado a realizar os estudos fundiários da área da demarcação esteve na região por duas vezes, tendo seu trabalho coibido. Proprietários de terras, políticos locais e membros da bancada ruralista no congresso estão articulando a divulgação de informações falsas para inviabilizar a demarcação da Terra Indígena Guasu Guavirá. Oficialmente a área ainda não está delimitada, mesmo assim notícias de jornal e grupos em redes sociais circulam um mapa e afirmam levianamente que mais de 35% da área urbana de Guaíra será afetada

Para além da recusa em reconhecer o direito constitucional dos povos indígenas às terras que tradicionalmente ocupam e das quais foram violentamente expulsos, conforme comprovado em inúmeros documentos, registros históricos e estudos acadêmicos, o que está sendo propagandeado no Oeste do Paraná é um discurso que incita a violência contra as comunidades e que adota como estratégia negar direitos humanos básicos, afim de que o povo Guarani deixe de existir aos poucos

Na última segunda-feira (4/12) a entrada da aldeia Y’Hovy foi bloqueada por cerca de 100 fazendeiros que tentavam impedir que uma entrega de madeira para a construção de moradias dignas fosse feita. Recentemente publicado, o Relatório sobre Violações de Direitos Humanos contra os Avá Guarani do Oeste do Paraná sistematizou diversos casos em que foi negado o acesso ao saneamento básico, água potável, eletricidade, incitação ao ódio, ameaças, sequestro e perseguições a fim de dificultar a permanência das comunidades nas áreas das atuais aldeias

Na quarta-feira (6/12), um ato contra as demarcações de Terras Indígenas foi convocado para o centro de Guaíra. Nos grupos de redes sociais o discurso de ódio ganhou a adesão de vereadores e outros políticos da região, além de associações empresariais que orientavam os comerciantes a fecharem estabelecimentos. A ordem para os comerciantes foi seguida da orientação para que a população boicotasse estabelecimentos que não paralisassem as atividades. É extremamente preocupante o cenário de polarização movida pelo ódio que se desenha na região.
Por se tratar de políticos, proprietários e empresários, detentores do poder local, o discurso de ódio ganha o componente da impunidade. Nas redes sociais, parte da população de Guaíra e Terra Roxa parece se sentir à vontade para manifestar opiniões racistas contra o povo Guarani e sugerir ações criminosas como, por exemplo, queimar o caminhão ou invadir as comunidades à noite para colocar fogo no material doado, ameaçando agir com violência contra as comunidades. 

Diante deste cenário, manifestamos nosso apoio às comunidades Guarani do Oeste do Paraná na luta pela garantia de seus direitos constitucionais. Exigimos dos órgãos responsáveis a continuidade do processo de demarcação da Terra Indígena Guasu Guavirá e a investigação dos crimes de ódio e incitação à violência, insuflados por uma campanha de desinformação da população da região sobre a história e os direitos indígenas fomentada pela propagação de informações falsas e preconceituosas nas redes sociais contra as comunidades Guarani.
 
Destacamos que é necessário e urgente que sejam tomadas medidas de proteção às comunidades Guarani, pois tememos por atos mais violentos contra a integridade da vida das pessoas.

ASSINAM O PRESENTE MANIFESTO:
CGY - Comissão Guarani Yvyrupa
CTI - Centro de Trabalho Indigenista
CIMI - Conselho Indigenista Missionário
CEPEDIS - Centro de Pesquisa e Extensão em Direito Socioambiental
Geolutas/Unioeste
Associação de Geógrafos do Brasil - Seção Marechal Cândido Rondon
Comitê de lutas sociais campo e cidade
Grupo de Pesquisa “Meio ambiente: Sociedades Tradicionais e Sociedade Hegemônica” (PUCPR)
Rede para o Constitucionalismo Democrático Latino-Americano, Região Sul
Rede Latinoamericana de Antropologia Jurídica (RELAJU)
CPT - Comissão Pastoral da Terra
SPM - Serviço Pastoral do Migrante
Observatório da Questão Agrária no Paraná
Rede Dataluta
Comissão Guarani Nhemonguetá
Comissão Pró-Índio de São Paulo
IEB - Instituto internacional de educação do Brasil
Anaí - Associação Nacional de Ação Indigenista
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul – Arpin-Sul 
Mídia Ninja
Fora do Eixo
Iepé - Instituto de Pesquisa e Formação Indígena
RCA - Rede de Cooperação Amazônica
Missionários Xaverianos
Mandato Vereador Paulo Porto Cascavel/PCdoB 
Centro Regional de Direitos Humanos Cascavel
Mandato Vereadora Marli do Esporte Toledo/PCdoB
Conselho de Missão entre Povos Indígenas - COMIN
Pastoral da Juventude do Paraná
CEBs do Paraná
Fórum sobre as Violações dos Direitos dos Povos Indígenas
CEAGRO - Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia - PR
Comissão Pastoral da Terra, Regional Sul II -PR
Movimento Tapajós Vivo (MTV)
Comissão Justiça e Paz (CJP) - Diocese de Santarém, Pará
Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)
Intersindical
APP de Luta e pela Base/Toledo
AP-LER
DCE da Unioeste - Campus Marechal C Rondon
GT - indígena/AGB seção Dourados
GIIPEDES - Grupo Interdisciplinar e Interinstitucional de Pesquisa e Extensão em Desenvolvimento Sustentável da Unioeste - Campus de Marechal Cândido Rondon 
APIB - Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
APOINME- Articulação dos Povos e Organizações  indígenas do Nordeste MInas Gerais e Espirito Santo
COIAB - Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira
Conselho Terena
Povo Kadiweu/MS
COAPIMA = Coordenação das Organizações e Articulações dos povos Indígenas do Maranhão 
ISA - Instituto Socioambiental
Cáritas Brasileira Regional Paraná
ARAS Caritas de Maringá
INSTITUTO T.U.P.I - Todos Unidos Pelos Indígenas
AFES - Ação Franciscana de Ecologia e Solidariedade
Diocese Anglicana do Paraná
Observatório Social de Direitos Humanos da UNIOESTE
Núcleo Sindical de Toledo/APPSINDICATO.
Projeto de Extensão Memória de Fronteira - PROEX - Unila - Universidade Federal da Integração Latino-Americana
Religiosas do Sagrado Coração - Província Brasil
CDH OAB  RJ
Comissão de Justiça e Paz de Macau - RN
ADUNIOESTE - Sindicato de Docentes da Unioeste
CEDEFES- Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva - MG
ENCONTTRA - Coletivo de Estudos sobre Conflitos pelo Território e pela Terra – UFPR
Terra de Direitos
Pastoral Operária do ParanáComunidade Quilombola da Casca
Colônia de Pesca Z34 de Balneário Pinhal
Luta dos Povos Ciganos
AGB Nacional - Associação dos Geógrafos Brasileiros
Conselho Regional de Psicologia de São Paulo
ABRAPSO - Associação Brasileira de Psicologia Social de São Paulo
Centro de Estudos Agrários e do Trabalho – CEAT
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mostardas – RS
Comunidade Quilombola de Vô Virgilinho de Tavares – RS
Comunidade Quilombola de Vó Marinha de Olhodagua de Tavares – RS
Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais  NIT/UFRGS