quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Mapa colaborativo identifica casos de contaminação por agrotóxicos no Paraná

Estado é o terceiro maior consumidor de venenos agrícolas do país


Brasil de Fato | Lapa (PR)
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"Quem mora perto de grandes plantações sabe que o som de uma avião sobrevoando baixo é sinal de veneno que vai chegar. Os casos de contaminação por causa da pulverização aérea de agrotóxicos são mais comuns do que se imagina, apesar de serem pouco denunciados.
Por essa razão, um coletivo de entidades e de organizações que estudam os impactos dos agrotóxicos construiu um mapa colaborativo para identificar a ocorrência desse tipo de situação no Paraná. No país, o estado é o 3º com maior consumo de agrotóxicos, segundo dados da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
O mapa impresso foi construído com a ajuda dos participantes da 16ª Jornada de Agroecologia, realizada na cidade da Lapa (PR), entre quarta-feira e sábado. As pessoas marcam no mapa os pontos onde ocorreram as contaminações, e preenchem um formulário com mais informações. Mais de 60 casos foram identificados durante a Jornada, como explica o estudante de Geografia Daniel de Oliveira, que ajudou a pensar a ferramenta: "Um dos casos muito recorrentes é a perda de árvores frutíferas como o mamão. O chuchu tem se mostrado um grande indicador de contaminação também. Outros elementos como morte de animais silvestres, como Lontras e capivaras, também já apareceram".
O agricultor Lucas Carvalho ajudou a identificar no mapa uma área que está sendo contaminada pela empresa Nortox, empresa que produz herbicidas e outros agrotóxicos, no distrito de Aricanduva, na cidade de Arapongas, no norte do Paraná. A empresa está localizada em uma área de manancial, que abastece as cidades da região."Tem casos de contaminação do lençol freático e da população local", conta. 
Os dados coletados no mapa vão ajudar na construção de uma denúncia que vai ser encaminhada ao Ministério Público do Paraná. Em breve, o mapa também poderá ser alimentado durante todo o ano, por um sistema que ainda vai ser desenvolvido pelo coletivo.
Debates
Os dados trazidos pelo mapa foram apresentados no seminário 'Contra os agrotóxicos e pela vida no campo e na cidade', realizado na sexta-feira (22), durante a 16ª Jornada de Agroecologia do Paraná. Durante a atividade, as pessoas destacaram a necessidade de refletir sobre alguns aspectos que estão relacionados aos casos registrados no estado.
Advogada popular da organização Terra de Direitos, Naiara Bittencourt avalia que a contaminação por agrotóxicos é uma das táticas utilizadas pelo agronegócio para esgotar os recursos naturais de áreas que poderiam ser usadas por indígenas, povos e comunidades tradicionais e expulsar essas populações. Afinal, como lembra ela, essas substâncias surgiram durante a Primeira Guerra Mundial, para serem usadas como armas químicas. "Os conflitos no campo tem armas mais veladas. E agrotóxico é uma forma de minar essa população", argumenta. 
Caso semelhante ocorre na comunidade quilombola Invernada Paiol de Telha, na cidade de Reserva do Iguaçu (PR). Moradores do local denunciaram a órgãos ambientais - como a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) e o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) - a contaminação de agrotóxicos no território quilombola. Fazendeiros que estão em posse da terra fazem a pulverização desses venenos nas áreas próximas às casas dos moradores e às nascentes de água da comunidade.
"A questão dos agrotóxicos no Brasil é uma questão de terra, é uma disputa agrária. Superar a contaminação é também avançar na distribuição de terras no Brasil", avalia a advogada popular.
Durante o seminário, o promotor de Justiça do Núcleo de Meio Ambiente do Ministério Público do Paraná, Alexandre Gaio, reforçou a necessidade de notificar os órgãos ambientais dos casos de contaminação no estado. Denúncias devem ser encaminhadas para secretarias municipais de meio ambiente, Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Polícia Militar Ambiental e órgãos como o Ibama (nos casos que envolvem áreas federais). O Ministério Público também pode ser notificado, para garantir que as instituições façam a avaliação dos casos e tomem providências para solucionar os problemas.
O promotor reforça a necessidade de a população acompanhar o andamento dessas denúncias, para garantir que sejam encaminhadas de forma efetiva. "O poder público é muito omisso em cumprir esse papel. É preciso um controle social para denunciar, acompanhar e exigir devolutivas", afirma."
postado originalmente em: https://www.brasildefato.com.br/2017/09/23/mapa-colaborativo-identifica-casos-de-contaminacao-por-agrotoxicos-no-parana/

Uso de agrotóxico no Paraná aumentou malformação de bebês, indica pesquisa


Uma pesquisa divulgada no artigo “Associação entre malformações congênitas e a utilização de agrotóxicos em monoculturas do Paraná, Brasil”,  Lidiane Dutra e Aldo Pacheco Ferreira, pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp)/Fiocruz, trouxeram evidências de que o uso indiscriminado de agrotóxicos pode estar ligado ao aumento da malformação congênita de bebês, além de outros problemas como abortos espontâneos. Em outra pesquisa, problemas causados em adultos.


 O  estudo analisou a associação entre o uso de agrotóxicos e as malformações congênitas (malformação durante a gestação) em municípios com maior exposição aos agrotóxicos no estado do Paraná, entre 1994 e 2014. Os dados comparativos usaram informações dos nascidos vivos (Sinasc/Ministério da Saúde), elaborando-se taxas de malformações ocorridas de 1994 a 2003 e de 2004 a 2014. “Este é um sistema de informação de base populacional que agrega os registros contidos na declaração de nascidos vivos, o que permite diversas análises na área de saúde materno-infantil”, afirmam em artigo científico.

Os pesquisadores relatam que foi encontrada uma tendência crescente nas taxas de malformação congênita no estado do Paraná, com destaque aos municípios de Francisco Beltrão e Cascavel. “Essas malformações congênitas podem ser advindas da exposição da população a agrotóxicos, sendo uma sinalização expressiva nos problemas de saúde pública”.

Em entrevista, a pesquisadora Lidiane Dutra, afirmou que ficou impressionada com a quantidade de agrotóxicos utilizados na região. “Por mais que soubesse ou suspeitasse de um alto uso de agrotóxicos pelo estado, verificar os dados acerca das toneladas de litros aplicados na região foi assustador. Quando se pensa que o estudo contabilizou apenas uma parte dos produtos utilizados, que existem subnotificações das vendas e que há tráfico destas substâncias, principalmente pelas fronteiras do Paraguai, a sensação é ainda mais aterrorizante”, disse.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

“POR DIREITOS E DEMOCRACIA, A LUTA É TODO DIA!”



“Neste ano, Grito dos Excluídos tem como tema ‘Por direito e democracia: a vida é todo dia’" /FOTO: Franciele Petry Schramm/ FONTE: Brasil de Fato, 2017.

Para a maioria dos brasileiros o dia 7 de setembro é sinônimo de descanso, porém, para outros, significa luta e resistência. A 23ª edição do Grito dos Excluídos deste ano de 2017 possui como lema “Por Direitos e Democracia a luta é todo dia”. Em várias cidades de diversos estados brasileiros, milhares de pessoas participaram do ato. No Paraná, cidades como Curitiba, Londrina e Cascavel também se mobilizaram.
Em Curitiba, cerca de 500 pessoas foram às ruas do bairro Vila Torres, com a bandeira do Brasil (tachada em cima com a inscrição “Todo poder ao povo”) e a de movimentos sociais do campo e da cidade. A concentração e saída foi em frente à Paróquia São João Batista e em seguida os manifestantes caminharam pelas do bairro e finalizaram em uma praça aos fundos do Jardim Botânico.
            O Grito é organizado por setores da Igreja Católica e movimentos sociais, tendo por objetivo denunciar o descontentamento do povo com a retirada de direitos básicos, mostrando que o povo não está apático perante os pacotes de medidas impostos pelo governo golpista de Michel Temer, como a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência.
As atividades do Grito trazem consigo denúncias sobre a situação caótica pela qual alguns municípios estão passando, principalmente, após a Emenda Constitucional 95 que congela os gastos da saúde e educação. Dessa forma, a 23ª edição foi marcada pela manifestação contra os retrocessos que vêm sendo provocados por um governo que não possui nenhum compromisso com o pacto social. Dentre estes retrocessos, destaca-se a volta do país ao mapa da fome e as violências e criminalizações contra a população em situação de rua e os povos da terra (indígenas, quilombolas, camponeses). Todas essas lutas por terra e território foram denunciadas durante o Grito.
            Em entrevista para ao Brasil de Fato, o manifestante Bonfim diz que “Os estudos apontam que o Brasil já voltou para o mapa da fome, neste momento tem 14 milhões de desempregados. Nesse sentido, é com tristeza que nós estamos realizando este Grito dos Excluídos. Mas, ao mesmo tempo com esperança, porque nós estamos organizando os movimentos populares, fazendo um trabalho de base para que a gente possa fazer essa denúncia, desse ajuste fiscal, desse ataque aos direitos e ataque em todos os âmbitos, do governo federal”. 
Além disso, lembrando o respeito a diversidade, o Grito também se manifesta contra a homofobia e o machismo, os quais se encontram enraizados ao conservadorismo presente na sociedade brasileira. Isto, por sua vez, acaba sendo o responsável pela morte de jovens brasileiros, principalmente homossexuais e mulheres, que em sua maioria são pobres e negros.
            O Grito ainda denuncia o descaso com a saúde, educação, saneamento básico, reforma agrária: violações do Estado que aumentam a exclusão e favorecem os ricos. Além disso, os participantes manifestam-se gritando “FORA TEMER” em busca da liberdade e democracia, protestando contra o governo golpista que, articulado à mídia manipuladora da Rede Globo, ‘comemorou’ um ano de golpe no dia 31 de agosto de 2017.
Em nota oficial no Facebook, a Secretaria Nacional do/a Grito dos/as Excluídos/as, manifestou com contentamento que “o Grito dos/as Excluídos/as veio para dizer que o povo tem voz. E que voz! Que os ecos desses gritos possam ser escutados ao longo de muito tempo, que possam ecoar em alto volume para que nunca se esqueçam que nós, povo, temos poder. Temos as ruas! Que não deixem o Estado dormir em seu silêncio cúmplice e confortável enquanto milhares estão tendo sua dignidade ferida”.
Representantes do Projeto de Extensão Feira Agroecológica da Universidade Estadual do Centro Oeste – UNICENTRO/Campus Irati, estiveram presentes na marcha do Grito dos/as Excluídos/as em Curitiba. Neste sentido, cabe apontar que a Agroecologia contrapõe a lógica da exploração e dos monocultivos do agronegócio, bem como é uma ferramenta popular na luta pela terra, regida pelos camponeses que resistem ao longo da história.



Mística final do 23º Grito dos Excluídos em Curitiba/Foto: Franciele Petry Schramm/ FONTE: Brasil de Fato, 2017.


            Assim, com esperança em um país melhor, a 23ª edição do Grito dos/as Excluídos/as marcou o Dia da Independência com gritos de milhares de brasileiros indignados com os retrocessos do governo golpista. Entretanto, é necessário lembrar que a caminhada não termina ao fim do dia, mas que como o lema diz, a luta é todo dia.

REFERÊNCIAS:
https://www.brasildefato.com.br/2017/09/07/em-curitiba-independencia-do-pais-e-questionada-no-23o-grito-dos-excluidos/

Caroline Cordeiro Santos (Coletivo do Projeto Feira Agroecológica da UNICENTRO/campus de Irati)




sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Mapa do território Guarani será lançado em São Paulo

Com lançamento marcado para a próxima terça-feira (29), mapa levantou dados de 1.416 áreas de ocupação em quatro países e aponta população de 280.000 Guarani na América Latina

Na próxima terça-feira (29), a partir das 18h, o Mapa Guarani Continental 2016 será apresentado no Auditório da Ação Educativa em São Paulo. No mesmo evento será lançado o Mapa Guarani Digital (guarani.map.as) plataforma interativa, que reúne informações sobre a ocupação e a situação fundiária das terras guarani no Brasil.

Resultado do trabalho de uma rede com mais de 200 colaboradores, entre comunidades guarani, indigenistas e acadêmicos, o Mapa Guarani Continental apresenta toda a área de ocupação atual do povo Guarani na América do Sul. São mais de 280.000 pessoas unidas por uma língua e cultura comuns, vivendo na Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai.

A partir desta sexta-feira (25), o Mapa Guarani Continental 2016 está disponível no site campanhaguarani.org. O download do PDF da publicação também pode ser feito nos sites do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Instituto Socioambiental (ISA) e da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), organizações que participaram do projeto. O Mapa é apresentado em três idiomas – português, espanhol e guarani – e é acompanhado por um livro com informações sobre a situação atual do povo Guarani nos quatro países por onde se estende seu território de ocupação.

Distribuídos por 1.416 comunidades, aldeias, bairros urbanos ou núcleos familiares, desde o litoral do Atlântico até a região pré-andina, os Guarani constituem um dos povos indígenas de maior presença territorial no continente americano. A maior parte da população Guarani – 85 mil pessoas – vive no Brasil, seguidos de 83 mil na Bolívia, 61 mil no Paraguai e 54 mil na Argentina e, assim como outros povos na América Latina, está em um franco processo de crescimento, com altos níveis de fecundidade aliados à queda dos níveis de mortalidade, mantidos há pelo menos 20 anos.

Um mapa feito pelos guarani
Para a rede de colaboradores envolvida na elaboração do mapa, trata-se de um instrumento de apoio para as demandas das comunidades guarani pelo reconhecimento de seus territórios e por políticas públicas que respeitem sua autonomia como povos que vivem em diferentes países.

Segundo Bartolomeu Meliá, antropólogo e editor da publicação que acompanha o mapa, o resultado é fruto do envolvimento das próprias comunidades indígenas. “A importância da iniciativa é justamente o protagonismo indígena apoiado com dados das várias outras fontes que colaboraram. De certo modo, o mapa é efetivamente um mapa guarani. É feito pelos Guarani para que eles mesmos se reconheçam enquanto grande comunidade”, diz o pesquisador.

A partir de fontes das próprias comunidades indígenas e de pesquisadores, a publicação introduz o leitor à realidade atual dos povos Guarani. A invasão e destruição de suas terras; as ameaças contra seu modo de ser; e a expulsão, a discriminação e o desprezo que vieram com a chegada de colonos, fazendeiros, sojicultores, usineiros e petroleiros, estão entre os principais problemas comuns enfrentados nos quatro países.

A violência também é ocasionada pelo avanço de várias frentes de expansão das sociedades nacionais, desde pequenos agricultores até latifundiários, regidas por sistemas econômicos e culturais contrários ao dos Guarani. “O Estado faz todo o possível para desfazer o que é precisamente o tekoha desses povos. O Estado quer que os indígenas sejam também uma sociedade de mercado onde as terras entrem também nesse mercado. Nos países com presença Guarani essa ação do Estado colonial é pior no Paraguai, depois provavelmente no Brasil”, comenta Meliá.

Mapa digital
O Mapa Guarani Digital será lançado na próxima terça-feira (29), no auditório da Ação Educativa, no centro de São Paulo (saiba mais sobre o evento aqui).

Na versão digital, que você acessa aqui, além dos 278 pontos atuais de localização das aldeias Guarani, o visitante pode consultar informações detalhadas sobre a situação fundiária de cada área. Do total de 198 Terras Indígenas de uso exclusivo do povo Guarani, apenas 33 estão regularizadas.

Também estão registradas no Mapa Digital, a localização de 255 antigas aldeias guarani, das quais os indígenas foram expulsos à força ao longo do século XX, além da localização de cerca de 1100 sítios arqueológicos guarani, distribuídos pelas mesmas regiões ocupadas pelos povo guarani na atualidade.

No Brasil, a população Guarani está em Terras Indígenas, reservas, áreas dominiais, acampamentos e situações urbanas, espalhada por onze estados nas cinco regiões brasileiras. Estima-se que sejam 64.455 pessoas na região Centro-Oeste, no estado de Mato Grosso do Sul (MS); 300 nos estados de Mato Grosso (MT), Tocantins (TO), Pará (PA), Maranhão (MA); e 20.500 nas regiões Sul e Sudeste, nos estados do Rio Grande do Sul (RS), Santa Catarina (SC), Paraná (PR), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Espírito Santo (ES).

Serviço
Lançamento do Mapa Guarani Continental e do Mapa Guarani Digital
Terça-feira (29), à partir das 18h, no Auditório da Ação Educativa
Rua General Jardim, 660, Vila Buarque. São Paulo-SP