terça-feira, 20 de dezembro de 2016

É TEMPO!!!



É tempo de ocupar, resistir e produzir!

Contra o capital e seu Estado, contra a ganância e a intolerância dos ricos, a resistência e a radicalidade dos pobres!

É tempo de ocupar fábricas e terras improdutivas, escolas e universidades que não cumprem a função social! É tempo de produzir alimentos, saúde, educação, trabalho digno, novas teorias revolucionárias, para superar o capitalismo e o capital.

É tempo de novíssima república, onde não haja espaço para impérios dos Joãos, Pedros, Buchs, Obamas e Trumps. Nunca mais velha república, novas repúblicas democrático-burguesas ou democrático-populares, e muito menos ditadores. Adeus "república de Curitiba", do Richa, do Moro e de seus capangas. Adeus Temer, Cunha, Gilmar Mendes e demais golpistas de Brasília, porque aumentaram nossas dores!

É tempo de:

É tempo de unir mente, coração e sangue vertendo nas artérias dos que trabalham e produzem as riquezas desta nação. É tempo de alicerçar nossa História na bravura dos mártires da Nossa América. É tempo de sentir pelo olfato, tato, paladar, ouvido, os heróis do nosso tempo, para ampliar nossa solidariedade e construir juntos uma nova realidade e uma nova visão.

É tempo de enxergar na natureza a na natureza humana, a cor da pele dos originários do tempo do paraíso invadido pelos europeus e a cor da "terra mãe" na cultura de todas as nações. É tempo de desanuviar a ilusão, e compreender quem produz para a vida e quem produz pela dor e o trabalho alheio, as doenças, a morte e o cinismo dos perdões.

É tempo de:

É tempo de sentir no rosto das crianças indígenas, a alegria da inocência diante da esperança destruída pelo latifúndio e o agronegócio mercantil. É tempo de observar as crianças pobres morrerem nas ruas, no acampamento, nas favelas e no cortiço, sem o pão de cada dia, enquanto as crianças ricas vivem em berço de ouro, protegidas em segurança máxima para a herança de fortunas mil.

É tempo de ocupar e resistir contra a PEC 241/055; o PL 257; as contrarreformas do ensino médio, trabalhista e previdenciária, contra a "Lei da mordaça" e a Lei Antiterror. Porque seus proponentes "têm as mãos sujas de sangue" e tem cheiro de morte. É tempo de ocupar e resistir em defesa das conquistas históricas da classe trabalhadora e demais pobres, "por nenhum direito a menos" - em defesa da vida e a favor do real produtor.

É tempo de:

É tempo de ocupar, resistir e produzir, em combate aos agrotóxicos, às sementes transgênicas e às máquinas da destruição. É tempo de vigorar nossa esperança pela vida saudável e auto-sustentável, salvar o Planeta Terra, produzindo alimentos e riquezas  sem fronteiras pelos caminhos da humanização.

É tempo de ocupar, resistir e fazer reforma agrária, demarcar as terras indígenas, legalizar as terras quilombolas, garantir terrenos urbanos para moradia popular. É tempo de superar os preconceitos por etnia, gênero e por região. É tempo de rebeldia contra a guerra agrária de 516 anos em todo nosso chão. É tempo de organizar, ocupar, resistir e produzir por local de trabalho, moradia e estudo, é tempo de revolucionar!

É tempo de:

É tempo de atravessar divisas e de derrubar cercas separatistas entre os pobres do campo e da cidade. É tempo de construir pontes do "H" através do trabalho associado e pela emancipação. É tempo de "olho no olho" dos camaradas e companheiros e, "ombro a ombro" na luta para derrotar os que exploram e oprimem com o lucro, o capital e a discriminação.

É tempo de apurar a consciência diante das contradições antagônicas e não antagônicas: diante do "cabo de guerra", entre salário e mais-valia, capital e trabalho, a real exploração; imperialismo e libertação nacional, mulheres e negros ricos e, mulheres e negros pobres as diferenças da opressão. É tempo da combatividade dos imprescindíveis contra qualquer dominação.

É tempo de buscar na memória e na História, as experiências da resistência, nas "veias abertas da América Latina", dos mártires em lutas incansáveis pela libertação!

É tempo de:
Sepé Tiarajú;
Túpac Amarú;
Felipe dos Santos;
Antônio Conselheiro;
Zumbi dos Palmares;
Margarida Alves.

Presentes, hoje e sempre!!!!

É tempo de:
Francisco Julião,
Vladimir Herzog;
Edson Luís;
Carlos Lamarca;
Carlos Marighella e
Santo Dias.

Presentes, hoje e sempre!

É tempo de:
Jose Martí;
Emiliano Zapata;
Augusto Cesar Sandino;
Camilo Torres;
Camilo Cienfuegos e
Ernesto Che Guevara.

Presentes, hoje e sempre!

É tempo de:
Oscar Romero;
Caio Prado Jr;
Luís Carlos Prestes;
Florestan Fernandes;
Octávio Ianni e
José Carlos Mariátegui.

Presentes, hoje e sempre!

É tempo de:

Karl Marx;
Friedrich Engels;
Vladimir Lênin;
Rosa Luxemburgo;
Leon Trotsky e
Mao Tse Tung.

É tempo de:
Antonio Gramsci;
György Lukács;
Eduardo Galeano;
Chico Mendes;
Rui Mauro Marini e
Eric Hobsbawm.

É tempo de:
Fidel Castro e
demais guerrilheiros da América Latina, do Brasil e dos
mártires operário-populares do nosso tempo.

Presentes, hoje e sempre!

Obs. 1 minuto de silêncio, em memória dos atuais mártires e em solidariedade com os atuais presos políticos da luta operário-popular.

É tempo de ocupar, resistir, produzir, já é tempo de revolucionar!
Já é tempo de alianças dos de baixo: operários e camponeses, indígenas e quilombolas, ilhéus e pescadores de todos os rincões. Sem-terras e sem-teto; trabalhadores formais e informais, imigrantes oprimidos de todas as nações.

Já é tempo de sentir nos pés, o orvalho e nos olhos as lágrimas de indígenas sem direitos em terras sem demarcação. Nas mãos calejadas de camponeses e sem-terras, a voz que não cala diante da reforma agrária sem solução. "Ouvir a voz rouca das ruas", dos moradores das sarjetas, viadutos, esgotos e palafitas, clamarem por moradia digna diante do Estado em eterna omissão.

É tempo de:
Atravessar fronteiras, continentes, rios, oceanos, morros e ruas para observar que temos um grande inimigo em comum, o capital e seu Estado em toda nação. Os exércitos em guerra contra os pobres negros, mulheres, homossexuais, imigrantes, trabalhadores públicos e dos bancos, do comércio e do chão da fábrica, em constante sangria e exploração. 

Já é tempo de fazer trincheiras na América Latina, no Caribe, na América do Norte, na África, na Ásia, na Europa e na Austrália, em toda a nação. É tempo de unir as forças proletário-camponesas e demais oprimidos, dos incansáveis socialistas e comunistas do mundo. É tempo de nova teoria, é tempo de  construir Revolução!

Firmes sempre,  revolucionários e revolucionárias contra o capitalismo e o capital!



Alfonso Klein
 (kleinengel@yahoo.com.br; kleinengel59@gmail.com)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Movimentos do campo lançam manifesto contra a reforma da previdência

O documento assinado por diversas organizações o governo golpista pela retirada de direitos de seguridade social


Da Página do MST

Movimentos e organizações camponesas lançam um manifesto contra a reforma da previdência do governo golpista de Michel Temer.

De acordo os movimentos, os impactos dessa reforma serão tremendos e exigem que o governo apresente publicamente as contas da seguridade social para justificar as mudanças. “Isso comprovaria a fraude que essas representam.”

O manifesto  denuncia ainda o golpe e o controle do Estado Brasileiro pelo Congresso Nacional, o Poder Judiciário e a Globo que seguem a lógica de exploração máxima dos trabalhadores.

“Lutaremos em todos os cantos do Brasil, com todos os nossos meios de pressão e em todas as instâncias contra a aprovação desta lei e vamos cobrar de todos os deputados e senadores que receberam votos das famílias agricultoras para que rejeitem o projeto de lei que golpeia duramente quem alimenta o país”, finaliza manifesto.

Confira abaixo na íntegra.

MANIFESTO DOS MOVIMENTOS DO CAMPO CONTRA A REFORMA DA PREVIDÊNCIA

O Governo Temer encaminhou ao Congresso Nacional a sua proposta de Lei para a Reforma da Previdência Social no Brasil.

As principais mudanças que atingem todos os trabalhadores/as são o aumento da idade mínima para aposentadoria aos 65 anos de idade para homens e mulheres e tempo de serviço para 49 anos de trabalho para ter direito a aposentadoria integral.

Em relação aos agricultores/as familiares, camponeses/as e trabalhadores/as rurais as mudanças propostas são radicais e profundas:

1º - Extingue a figura jurídica de segurado especial, sistema solidário/contributivo de Previdência, criado ainda nos Governo Militar e consolidado com a Constituição de 1988, que garante uma aposentadoria de um salário mínimo para os homens, aos 60 anos e para as mulheres aos 55 anos, com a comprovação de atividade agrícola por no mínimo 15 anos. No entanto, os Militares e as Polícias Militares que também possuem um sistema diferenciado continuaram sendo Segurados Especiais.

2º - Obriga os agricultores/as familiares, camponeses/as e trabalhadores/as rurais a ingressar no sistema do INSS, com pagamento mensal em dinheiro, para ter acesso à aposentadoria aos 65 anos, com a comprovação de pagamento de INSS por 25 anos.

3º - Os Benefícios de Prestação Continuada, que hoje é concedida a pessoas idosas pobres com mais de 65 anos que não tem acesso aos benefícios previdenciários, e para Pessoas com Deficiência que recebem um Salário Mínimo Mensal, pelo Projeto Golpista, aumenta a idade para 70 anos e desvincula o benefício do Salário Mínimo, pagando menos que este salário para o mais de 4,5 milhões de pessoas que hoje sobrevivem com um mínimo de dignidade com esta renda.

4º - As pensões por viuvez serão reduzidas a 50% e do salário mínimo e não podem mais ser acumuladas com a aposentadoria.

5º - Se aprovada á lei os agricultores/as familiares, camponeses e assalariados rurais que não estiver em dia com a contribuição mensal, não terá acesso ao auxílio doença, aposentadoria por invalidez e nem licença maternidade.

Os impactos dessa reforma serão tremendos sobretudo nos municípios de economia de base local, onde pensões e aposentadorias giram o comercio mensalmente, dentre os impactos citamos:

• As consequências para o comércio local, a renda e a viabilidade econômica dos pequenos e médios municípios do interior do Brasil serão enormes, pois se a lei for aprovada, por dez anos não haverá novos aposentados diminuindo a renda em todas as atividades econômicas destes municípios.

• As consequências destas medidas só podem ser descritas como crueldade, desrespeito, perversidade e violência social.

• Os mais violentados são os idosos, as pessoas com deficiência, os doentes e as mulheres.

• Ainda mais quando os privilégios dos militares são mantidos e o presidente e grande parte dos seus ministros se aposentaram com 53 anos com salários superiores a R$ 15.000,00 por mês.

• Quem alimenta o Brasil, os agricultores e agricultores que produzem 70% da comida que vão todos os dias para as mesas do povo brasileiro, estão sendo atacados e desrespeitados.

• Os capitalistas tomaram de assalto o Estado Brasileiro, deram um Golpe, e agora estão mostrando as garras e usando o controle do Congresso Nacional, o Poder Judiciário e a Globo para explorar ao máximo os trabalhadores.

Diante disto, os Movimentos abaixo assinados, afirmam:

* Rejeitamos, rechaçamos e vamos combater com todos os nossos meios e forças de pressão, este projeto perverso;

* Defendemos a garantia Constitucional da Legislação de Segurado Especial e do Salário Mínimo como referência para qualquer benefício;

* Defendemos os atuais limites de idades para acesso aos benefícios;

* Exigimos que o governo apresente publicamente as contas da seguridade social para justificar as mudanças, pois isso comprovaria a fraude que essas representam;

* Exigimos que o governo explique porque não mexe nos juros e outros serviços do capital ao invés de retirar direitos dos mais pobres, mulheres, pessoas com deficiência como saída para “resolver” as questões da previdência.

Nos mobilizaremos e lutaremos em todos os cantos do Brasil, com todos os nossos meios de pressão e em todas as instâncias contra a aprovação desta lei e vamos cobrar de todos os deputados e senadores que receberam votos das famílias agricultoras para que rejeitem o projeto de lei que  golpeia  duramente  quem alimenta o Brasil.

Belo Horizonte, 08 de dezembro de 2016.

Confederação Nacional dos trabalhadores/as na agricultura (CONTAG)
Confederação nacional dos agricultores familiares (CONTRAF)
Comissão pastoral da terra (CPT)
Comissão nacional de comunidades quilombolas (CONAQ)
Comissão indigenista missionário (CIMI)
Movimento camponês Popular (MCP) 
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Movimento dos atingidos por Barragens (MAB)
Movimento dos pequenos agricultores (MPA)
Movimento pela soberania popular sobre a mineração (MAM)
Movimento de Mulheres Camponesas (MMC)
Pastoral da Juventude Rural (PJR)
Via Campesina Brasil  


No PR, Militantes do do MAB se preparam para 8º encontro nacional do movimento

Ocorreu no dia 13/12, em Curitiba-PR, ato de lançamento do 8ª Encontro Nacional do MAB. O ato teve a participação de várias lideranças, militantes de sindicatos, organizações e movimentos sociais. Esteve presente também a turma de formação de militantes e a coordenação estadual do movimento.



Fonte: Site MAB

Este é um momento importante na história de luta e organização dos atingidos por barragens no Brasil. A realização do nosso 8º Encontro Nacional, acontecerá em outubro de 2017, com o tema “Água e Energia com Soberania, Distribuição da Riqueza e Controle Popular”.
Temos consciência que nossos direitos não virão por uma questão de justiça ou por bondade dos governantes, muito menos por iniciativa das empresas. Nossos direitos só serão conquistados através de nossa organização e luta permanente, no campo e na cidade, na busca pela transformação radical da sociedade.


Texto original em: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

Neoenergia descumpre acordo e não comparece à reunião de negociação



Empresa responsável pela hidrelétrica de Baixo Iguaçu demonstra descaso com atingidos e autoridades do estado do Paraná


Fonte:MAB

No dia 23/11/2016, em reunião realizada em Curitiba (PR) com representantes de diversas instituições, foram encaminhadas propostas para retomada da negociação entre os atingidos e o consórcio responsável pela Usina Hidrelétrica (UHE) Baixo Iguaçu. Dentre os encaminhamentos estava a retirada do acampamento dos atingidos localizado em frente ao acesso do canteiro de obras da usina e reunião de negociação envolvendo todas as partes para o dia 29/11/2016.
No entanto, para revolta dos atingidos, a Neoenergia, que detém 70% do empreendimento da UHE Baixo Iguaçu não compareceu à reunião, demonstrando mais uma vez sua falta de respeito e compromisso com os acordos pré-estabelecidos. Na reunião do dia 29/11/2016, estavam presentes novamente integrantes de várias instituições, como o Arcebispo Metropolitano Dom José Peruzzo, parlamentares, Casa Civil, Ministério Público, Defensoria Pública, Copel, Conselho Nacional de Direitos Humanos, Instituto Ambiental e outros.
“E uma vergonha o que ocorreu hoje. A Neoenergia enganou todo mundo. Estão enrolando os atingidos há quase quatro anos e nos últimos meses enrolam descaradamente também os representantes do Estado, do Ministério Público, Defensoria, Igreja, parlamentares. Os atingidos cumpriram sua parte, retiraram o acampamento que durou quase 40 dias, e a empresa deu um golpe em todos os envolvidos”, explica um integrante da coordenação do MAB, que preferiu não ser identificado.
Como desdobramento da reunião do dia 29 ficou acordada uma reunião para quarta-feira 30/11, na qual a coordenação dos atingidos detalhará a pauta de reivindicações ao Diretor de Desenvolvimento de Negócios da Copel, JonelIurk. Já na próxima semana, haverá reunião com o governador do Paraná, Beto Richa, e Consórcio Empreendedor Baixo Iguaçu (Neoenergia e Copel), para definir um cronograma mínimo de compromissos para atendimento da pauta dos atingidos. O próprio governador já fez declarações públicas de que o melhor para as famílias é o reassentamento.
Para outro membro da coordenação do MAB, que também solicitou para não ser identificado, a situação dos atingidos requer uma resposta rápida do poder público. “Os atingidos cumpriram sua parte, agora está na mão do governador do estado fazer com que a empresa cumpra o que está no Plano Básico Ambiental, nas licenças e acordado em várias reuniões. De agora em diante, a responsabilidade é toda do governo e da empresa”, afirma.
Na pauta apresentada pelos atingidos constam, dentre outros pontos, a necessidade de aquisição imediata de áreas para reassentamento, reajuste no caderno de preços, condições para acompanhamento técnico das famílias e área de preservação permanente de 100 metros.
Baixo Iguaçu
A UHE Baixo Iguaçu começou a ser construída pela Odebrecht há aproximadamente três anos e meio e, quando concluída, terá uma capacidade de gerar até 350 MW de energia elétrica. O Consórcio Energético Baixo Iguaçu, dono do empreendimento, é formado pela Companhia Paranaense de Energia – Copel (30%) e, majoritariamente, pela Neoenergia, que é constituída pelo Fundo de Previdência do Banco do Brasil, Banco do Brasil e Iberdrola.
Esta última é uma multinacional espanhola que figura entre as cinco maiores companhias elétricas do mundo, com presença em 40 países. No Brasil, a empresa domina a distribuição de eletricidade a 11,5 milhões de pessoas, por meio da Coelba (Bahia), Cosern (Rio Grande do Norte), Celpe (Pernambuco) e Elektro (São Paulo).
No total, Baixo Iguaçu atingirá 1025 famílias, distribuídas entre os municípios paranaenses de Capanema, Capitão Leônidas Marques, Planalto, Nova Prata do Iguaçu e Realiza.

Texto original postado no Site do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Terrenos da desigualdade: Terra, agricultura e desigualdade no Brasil rural.

Movimento "Grito dos excluídos" em romaria no interior do estado de São Paulo. (Foto: Tuca Vieira)
   A desigualdade extrema tem múltiplas origens e traz sérias consequências negativas para a garantia de direitos e o desenvolvimento sustentável. Entre suas causas estruturais está a concentração da terra, um fator de preocupação na América Latina e, em especial, no Brasil. A concentração da terra está ligada ao êxodo rural, à captura de recursos naturais e bens comuns, à degradação do meio ambiente e à formação de uma poderosa elite associada a um modelo agrícola baseado no latifúndio de monocultivo, voltado à produção de commodities para exportação e não para a produção de alimentos. É preciso reconhecer que a desigualdade é um grave e urgente problema no Brasil e que sua solução passa por transformações em suas causas estruturais.

Download desta publicação: 

Texto originalmente publicado em: Oxfam Brasil 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ACADÊMICOS DE GEOGRAFIA DA UNIOESTE FIZERAM TRABALHO DE CAMPO NO QUILOMBO PAIOL DE TELHA (RESERVA DO IGUAÇU/PR)

Fomos visitar os quilombolas
do Paiol de Telha.
Que gente guerreira
do meu Paraná!
Quilombo desconhecido,
quilombolas quase ou nada reconhecidos
Na verdade, gente que mora na invisibilidade.
Mas lutaram pelos seus direitos,
pela lei, exigiram respeito.
Quilombolas foram assentados,
seus direitos foram resgatados.
Quilombolas do Paiol de Telha,
viva, viva essa gente guerreira!
Quilombolas, essa gente atenta
que o  Brasil representa:
representa a gente guerreira
da Nação brasileira e do meu Paraná!...

(Quilombo Paiol de Telha, poema inédito de Luiz Carlos Flávio)


No dia 10 de setembro deste ano de 2016 visitamos o Quilombo Paiol de Telha - Fundão situado em Reserva do Iguaçu/PR, a cerca de 100 km de Guarapuava, no Centro-Sul do Paraná. Trata-se de um trabalho de campo que envolveu as turmas de Geografia Agrária do cursos de bacharelado e licenciatura em Geografia, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) de Francisco Beltrão. É o segundo ano consecutivo que levamos os acadêmicos da geografia para visitar este território quilombola.
O principal objetivo de nossa visita foi possibilitar aos formandos em geografia uma visão ampla da questão quilombola no Brasil como um todo. Como sabemos, os quilombos são a marca mais evidente da luta das comunidades negras, de um período que abrange tanto antes o quanto o depois da abolição da escravidão. Os territórios quilombolas são a marca da luta pela conquista e defesa dos territórios de negros e seus descendentes. Uma luta que busca, como afirma Simone Resende da Silva, resgatar “a memória como forma de reinvenção da identidade e territorialidade negra” do país (SILVA, s/d, p. 1).
A luta dos quilombolas em nível de Brasil avançou em ganhos políticos, ao longo de 10 a 15 anos, face a muitas conquistas concretizadas pelas demarcações de terras de diversas comunidades, pelo governo brasileiro. Conforme dados oficiais recentes, aproximadamente 28 mil famílias quilombolas foram contempladas com a regularização de seus territórios, entre os anos de 2005 e 2015 (REGULARIZAÇÃO DE TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS, 2016).





                         Foto 1: Acadêmicos conhecendo o Quilombo Paiol de Telha.

Diante da luta e das conquistas, vale anotarmos que o trabalho de campo citado, realizado junto à Comunidade Quilombola Paiol de Telha, em Reserva do Iguaçu traz em si um grande significado. Primeiro por suscitar nos acadêmicos uma atenção especial para a importância da questão dos descendentes de escravos no país. E segundo, pelo fato de que, se no Brasil como um todo a questão quilombola tem sido considerada como lançada às raias da invisibilidade, no Paraná esta problemática ganha um significado ainda muito maior.  
Pois, como afirmou o Grupo de Trabalho Clóvis Moura (QUILOMBOS..., s/d), em detalhada pesquisa sobre o tema, quilombos e quilombolas sempre foram reconhecidos como existentes por todo o Brasil. Mas no Paraná: “quem diria”, uma vez que : “Em terras paranaenses a diversidade étnica demonstrava-se apenas e tão somente européia, quando toda uma estratégia de invisibilidade dos Outros não europeus era trabalhada”.
Assim, a presença dos remanescentes de quilombos no Brasil tem sido dada como certa em diversas partes do país. A Fundação Cultural Palmares confirma os registros de 1342 comunidade remanescentes de quilombos (FELIPE, 2015, p. 121). Já, indo de encontro a esse “senso comum” que afirmava a não existência de quilombolas no Paraná, recentemente, a partir das pesquisas do Grupo de Trabalho Clóvis Moura, descobriu-se a existência 86 comunidades consideradas remanescentes de quilombos presentes no Estado
Uma delas é a que visitamos em Trabalho de Campo, o Quilombo Paiol de Telha – Fundão, situado em Reserva do Iguaçu/PR. Este tem uma história que data dos anos 1860, quando “[...] Balbina Francisca de Siqueira Cortes, proprietária da fazenda Capão Grande, deixa em testamento à seus treze escravos libertos, a área de terra denominada Invernada Paiol de Telha.” (FELIPE, 2015, P. 3.310).
Em diversos períodos históricos, desde tal doação, os escravos e seus descendentes foram sendo expropriados de suas terras, pelo uso da força e violência. Somente nos anos 1990, após direitos legados pela constituição federal de 1988, bem como ao avivamento das políticas de patrimonialização voltadas, dentre outros, aos direitos dos povos negros, os descendentes  de quilombolas buscaram formas de retomar o território tidos, por direito, de seus ancestrais. Foram lutas duras, face à realidade de disputas pela terra empreendidas em confronto com grandes empresas, como a Cooperativa Agrária, que queria se adonar de forma definitiva das terras quilombolas.
Como corolário da luta vivida por muitas famílias quilombolas, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária assinou em outubro de 2014 por­taria de reconhecimento do território da comunidade quilombola Invernada Paiol de Telha – Fundão, em Reserva do Iguaçu, quilombo este, aliás, que é reconhecido como o “primeiro  território quilombola do Paraná” (INCRA RECONHECE..., 21/10/2014).
De lá para cá, a comunidade vem trabalhando para implementar o  resgate da identidade esfacelada no processo de alijamento que tais quilombolas historicamente experimentaram. Além do resgate dos saberes e da cultura ancestrais, a comunidade também tem buscado implementar formas de renda voltadas ao desenvolvimento econômico e social dos quilombolas. Dentre outras atividades por eles desenvolvidas (criação de galinhas; cultivo de horta etc.) a comunidade adotou recentemente o cultivo de alho como uma das alternativas de criação de renda voltada ao objetivo mencionado.



            Além de conhecer a dura realidade, bem como a luta, vivida pelos descendentes de quilombolas, tendo contato com a história de conquista do direito de acesso a parte da terra pertencente aos seus ancestrais, os acadêmicos também puderam anotar, dentre outros aspectos as preocupações atuais da comunidade. Dentre estas, o resgate da cultura quilombola, a busca de bases econômicas que sejam sustentáveis a curto, médio e longo prazo. Mas sobretudo com as mudanças de ordem política vividas no Brasil, face ao Impeachment da Presidente Dilma Roussef, ocorrido em 31 de agosto de 2016.
Pois, como nos relatou Ana Maria Santos da Cruz, líder do quilombo: com a ascensão de Michel Temer ao poder, começou uma forte onda de retirada de direitos dos povos indígenas, quilombolas, agricultores e demais trabalhadores. Isso deixa a comunidade de sobreaviso para, se preciso, empreender as lutas que forem necessárias para garantir que os remanescentes de quilombolas tenham seus direitos conquistados/adquiridos respeitados pelo Estado
brasileiro.



Referências
BRASIL. Ministério da justiça e cidadania. Políticas de promoção da igualdade racial. Regularização de territórios quilombolas no brasil. 21/03/2016. Disponível em:  http://www.seppir.gov.br/central-de-conteudos/noticias/2016/03-marco/regularizacao-de-territorios-quilombolas-no-brasil . Acesso: 05.12.2016.
FELIPE, Delton Aparecido. Patrimônio cultural negro no Paraná: lugares, celebrações e saberes. In:  Historiae, Rio Grande, n. 6(2), pp. 117-134, 2015.
FELIPE, Delton Aparecido. Patrimônio cultural negro no Paraná: a comunidade quilombola paiol de telha. In: XVII Congresso Internacional de História, XXXV Encuentro  de Geohistória Regional, XX Semana de História. 06 a 09 de outubro de 2015, pp. 3.303-3315. Disponível em http://www.cih.uem.br/anais/2015/trabalhos/1236.pdf. Acesso: 04/12/2015.
INCRA reconhece o primeiro território quilombola do PR. Gazeta do Povo. Vida e cidadania. 21.10.2014. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/incra-reconhece-o-primeiro-territorio-quilombola-do-pr-ef7n08505gpm8vqv74zcxmxce . Acesso em 04.12.2016.
QUILOMBOS e quilombolas no Brasil, mas no Paraná, quem diria. Grupo de Trabalho Clóvis Moura. História, quilombos e quilombolas. Disponível em: http://www.gtclovismoura.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=58 . Acesso: 05.10.2016.
SILVA, Simone Resende da. Quilombos no Brasil: a memória como forma de reinvenção da identidade e territorialidade negra. S/D. Disponível em: http://www.ub.edu/geocrit/coloquio2012/actas/08-S-Rezende.pdf . Acesso: 05.12.2016. 



Texto de :
Luiz Carlos Flávio
Professor do curso de Geografia da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná,
 campus de Francisco Beltrão.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Circular IX SEET I SIET


Plano de redução do Banco do Brasil afetará agricultura, afirmam movimentos rurais

Instituição é responsável por cerca de 60% do crédito rural no país


 
O plano de redução anunciado pelo Banco do Brasil (BB) e endossado pelo governo Michel Temer (PMDB) preocupa organizações de camponeses. A instituição é hoje responsável por cerca de 60% do crédito rural concedido no país. Para o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), as medidas são “desastrosas” e trarão impactos negativos na economia de pequenos municípios.
A direção do BB, sob o argumento de “racionalização de recursos”, pretende fechar 31 superintendências, 402 agências e transformar outras 379 em postos de atendimento. A diferença entre as duas últimas categorias é que somente a primeira conta com gerentes. Ou seja, serão 781 estabelecimentos a menos, o que representa 14% do número hoje existente – 5.430, cifra que põe a instituição à frente de todos concorrentes.
Em relação ao número de trabalhadores, a direção do BB têm a expectativa de que cerca de 9 mil funcionários ingressem em um programa de aposentadoria voluntária. Atualmente, 18 mil pessoas se enquadram nos critérios para aderir à proposta. Na hipótese de essa totalidade de empregados decidir se aposentar, a redução seria equivalente à quantidade total de funcionários do banco HSBC no Brasil.
Para o Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, a medida vai na contramão das exigências para saída da situação econômica que o país vive.
"O desmonte do Banco do Brasil terá impacto no acesso ao crédito no país. Somente os bancos públicos aumentaram o crédito de 38% para 57% de 2008 para 2016, enquanto os privados tiveram redução de 5% nos últimos dois anos”, afirma a entidade em nota. “Essa agenda irá aprofundar a recessão na medida em que enfraquece o mercado interno e a infraestrutura social e econômica que nos fizeram avançar na última década”, completa.
O documento do sindicato ainda afirma que é urgente a criação de alternativas para a saída da crise, "que passem pela retomada da expansão do crédito para setores prioritários como moradia popular, agricultura familiar, pequenas e médias empresas etc.”.
Além disso, o plano favoreceria o setor bancário privado. “O governo Temer quer desmontar mais uma empresa pública. Quer fechar agências e reduzir postos de trabalho no BB. O oposto do que foi feito nessas empresas nos últimos 12 anos. Esse importante banco público é responsável, por exemplo, por cerca de 60% do crédito agrícola no país”, afirma a presidenta do sindicato, Juvandia Moreira.
“Esse desmonte só interessa aos bancos privados, que não terão concorrência. Em um sistema financeiro extremamente concentrado e sem os bancos públicos fortes, toda a sociedade perde”, declara Moreira.
Instituição terá 781 agências a menos, cerca de 14% do total hoje existente / Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Agricultura

Dado o volume de crédito para o setor agrícola representado pelo Banco do Brasil, as propostas de redução preocupam movimentos populares do campo.
"O Banco do Brasil tem sido um dos parceiros fundamentais, com apoio e crédito, da agricultura camponesa. É um elemento estratégico do ponto de vista do financiamento, com juros baixos. Só os bancos públicos oferecem esse tipo de serviço", diz Anderson Amaro, da coordenação do MPA, para quem a instituição, até hoje, vinha “facilitando a produção de alimentos”.
Para ele, a expansão do BB nos últimos anos, inclusive do ponto de vista físico, foi um dos principais fatores para esse incentivo. “A capilaridade do banco avançou nos últimos anos, aumentando a disponibilidade para a agricultura como um todo”, aponta Amaro.
“O anúncio de fechamento de uma quantidade significativa de agências vai atingir todas as famílias que tinham acesso facilitado, porque estavam próximas de seu agente financeiro. Em alguns casos, terão de se deslocar quilomêtros de distância", projeta o dirigente.
Amaro lembra que, em muitas localidades do país, a atividade agrícola é o elemento fundamental de dinamismo da economia, e que tal redução terá também efeitos indiretos sobre o país. "[Essa redução] poderá impactar no PIB. A gente sabe da importância da agricultura na economia, terá um efeito cascata", diz.
"Em todo o Brasil, municípios pequenos e médios têm sua economia baseada na agricultura. A seca que ocorreu no Espírito Santo, por exemplo, teve um impacto fortíssimo sobre a economia e o comércio locais, estagnando-a. Imagine isso no próximo período, com agências fechadas? A dificuldade será dobrada", prevê.
Dado esse cenário, o dirigente afirma que o MPA, bem como os movimentos articulados em torno da Via Campesina já estão se organizando para enfrentar o plano. "O governo ilegítimo mostra sua face a cada dia. Não vamos deixar isso acontecer de braços cruzados", finaliza.

Veja a lista das agências que serão fechadas no Paraná:

Cascavel - prefixo 3289 - São Cristóvão
Curitiba - prefixo 3051 - Carlos Gomes
Curitiba- prefixo 4195- Walmart Cabral
Curitiba- prefixo 4395 - Av. Presidente Kennedy
Curitiba- prefixo 5269 - Conselheiro Laurindo
Curitiba- prefixo 6992 - Rua Mariano Torres
Curitiba- prefixo 5043 - Novo Mundo
LOndrina - prefixo 6991 - Rua Pernambuco
Maringá - prefixo 4898 - Catedral - Maringá
Maringá - prefixo 7104- Avenida Cerro Azul Maringá
Ponta Grossa - prefixo 3233- Nova Rússia

Veja a lista das agências que serão transformadas em postos de atendimento:

Contenda - prefixo 1794 - Contenda
Curitiba - prefixo 1518 - Centro Cívico
Iguaraçu - prefixo 4027 - Iguaraçu
Janiópolis - prefixo 2205- Janiópolis
Jesuítas - prefixo 4504 - Jesuítas
Londrina - prefixo 5047 - Avenida Maringá
Londrina - prefixo 8450 - Avenida Inglaterra
Londrina - prefixo 8600 - Rua Mato Grosso
Lupionópolis- prefixo 4151 -Lupionópolis
Quitandinha - prefixo 4755 - Quitandinha
Reserva - prefixo 2523 - Reserva
Rio Branco do Ivaí - prefixo 4108 - Rio Branco do Ivaí
Santa Cecília do Pavão - prefixo 2573 - Santa Cecília do Pavão
São Pedro do Iguaçu - prefixo 4110 - São Pedro do Iguaçu
Tamarana - prefixo 4785 - Tamarana


Texto original em Brasil de Fato e G1 PR